Friday, 12 June 2026

A REINVENÇÃO DO COMUM: POLÍTICA E ESPIRITUALIDADE

 


A ideia de “comum” tornou‑se, nas últimas décadas, uma espécie de relíquia conceptual que todos a evocam, poucos a entendem e quase ninguém a pratica. É o equivalente político daquelas peças de museu que todos admiram à distância, mas que ninguém ousa tocar, não vá o alarme disparar e revelar a fragilidade da nossa convivência colectiva. A reinvenção do comum surge, assim, como uma urgência civilizacional, não porque o comum tenha desaparecido, mas porque foi sequestrado por discursos que o transformaram num slogan vazio, útil para campanhas eleitorais, homilias piedosas ou programas de governo que prometem mundos e fundos enquanto entregam migalhas e austeridade. A espiritualidade, por sua vez, foi convertida num produto de supermercado emocional em que  há espiritualidade detox, espiritualidade mindfulness, espiritualidade para executivos exaustos e espiritualidade para influencers que descobriram que a iluminação rende mais likes do que a maquilhagem. O encontro entre política e espiritualidade, neste contexto, parece tão improvável quanto um debate parlamentar onde todos se ouvem ou uma assembleia sinodal onde ninguém tenta controlar a agenda.

Contudo, é precisamente neste cruzamento improvável que reside a possibilidade de reinventar o comum. A política, esvaziada de transcendência, tornou‑se uma técnica de gestão de danos; a espiritualidade, amputada da dimensão comunitária, converteu‑se num exercício de auto‑ajuda com incenso. Ambas perderam a capacidade de gerar sentido colectivo, e é essa falência partilhada que abre espaço para uma reconfiguração profunda. A reinvenção do comum exige, antes de mais, desmontar a ilusão confortável de que o comum é um dado natural. Não é. O comum é uma construção, um trabalho, uma prática quotidiana que implica conflito, negociação, renúncia e, sobretudo, uma ética que não se esgota na contabilidade dos interesses individuais. O comum não é o que sobra depois de cada um ficar com a sua parte; é o que só existe porque todos se comprometem com algo maior do que si próprios.

A política contemporânea, porém, habituou‑se a tratar o cidadão como consumidor e o eleitor como cliente. O resultado é um espaço público onde o debate se reduz a slogans, a participação se limita ao voto ocasional e a responsabilidade colectiva se dissolve na confortável ficção de que “alguém” quer seja o Estado, a Europa, a ONU ou o vizinho do lado há‑de resolver o que não queremos enfrentar. Esta infantilização cívica é incompatível com qualquer ideia séria de comum. O comum não se delega, não se terceiriza, não se subcontrata. O comum exige presença,  corpo e voz. Exige, sobretudo, uma espiritualidade que não seja fuga, mas enraizamento.

É aqui que a espiritualidade entra como elemento subversivo. Não a espiritualidade higienizada, vendida em embalagens recicláveis com promessas de serenidade instantânea, mas a espiritualidade que confronta, que desinstala, que obriga a olhar o outro não como obstáculo, mas como espelho. Uma espiritualidade que recusa a lógica do “eu primeiro” e que insiste na dignidade do “nós”. Esta espiritualidade não é necessariamente religiosa, embora possa sê‑lo; não é necessariamente institucional, embora possa dialogar com instituições; não é necessariamente mística, embora possa abrir espaço ao mistério. O que a define é a capacidade de gerar sentido partilhado, de convocar uma ética da responsabilidade e de sustentar práticas de cuidado que não dependem de modas nem de algoritmos.

A reinvenção do comum passa, portanto, por recuperar a dimensão espiritual da política não no sentido teocrático, mas no sentido antropológico. A política precisa de reencontrar a sua vocação de construção de sentido colectivo, de criação de horizontes, de mobilização de energias que não se esgotam na gestão do quotidiano. Uma política sem transcendência é uma política míope, condenada a gerir crises em vez de as prevenir, a apagar fogos em vez de construir casas, a reagir em vez de imaginar. A transcendência, neste contexto, não é um dogma, mas uma abertura; a capacidade de pensar para além do imediato, de agir para além do interesse próprioe de decidir para além do cálculo eleitoral.

A espiritualidade, por sua vez, precisa de recuperar a sua dimensão política não no sentido partidário, mas no sentido comunitário. Uma espiritualidade que se refugia na interioridade e ignora a injustiça social é apenas uma forma sofisticada de narcisismo. Uma espiritualidade que se limita a oferecer consolo sem exigir transformação é cúmplice da ordem estabelecida. Uma espiritualidade que promete paz interior enquanto o mundo arde é, no fundo, uma anestesia. A verdadeira espiritualidade é inquieta, é exigent e é incómoda. Não se contenta com a harmonia individual; procura a justiça colectiva. Não se satisfaz com a serenidade privada; exige a dignidade pública. Não se limita a curar feridas; pergunta quem as provoca.

A reinvenção do comum exige, assim, uma aliança entre política e espiritualidade que recuse tanto o cinismo tecnocrático quanto o escapismo místico. O cinismo tecnocrático reduz o mundo a números, gráficos e indicadores, esquecendo que por detrás de cada estatística há vidas concretas. O escapismo místico, por sua vez, transforma a espiritualidade numa bolha onde tudo é luz, energia e vibração, desde que não se fale de pobreza, desigualdade ou violência estrutural. Entre estes dois extremos, o comum desaparece, esmagado pela indiferença de uns e pela evasão de outros.

A reinvenção do comum implica, também, uma crítica mordaz às formas contemporâneas de individualismo. O indivíduo moderno foi educado para acreditar que a liberdade consiste em não depender de ninguém, que a autonomia é incompatível com a interdependência e que a realização pessoal é um projecto exclusivamente privado. Esta narrativa, repetida até à exaustão, produziu sociedades onde a solidão é epidémica, a confiança é escassa e o bem‑estar é medido em likes. O comum, neste cenário, é percebido como ameaça à liberdade, à propriedade e à identidade. Reinventar o comum significa desmontar esta fantasia e reconhecer que a liberdade sem vínculos é apenas uma forma elegante de isolamento.

A espiritualidade pode oferecer aqui uma contribuição decisiva, ao recordar que o ser humano não é uma ilha, mas um arquipélago. Que a identidade não se constrói contra o outro, mas com o outro. Que a plenitude não se alcança acumulando, mas partilhando. Que a vida não se realiza na competição permanente, mas na cooperação criativa. Esta visão não é romântica; é profundamente realista. A interdependência não é uma escolha; é uma condição. A questão não é saber se dependemos uns dos outros, mas como transformamos essa dependência em força colectiva em vez de fragilidade social.

A política, por sua vez, precisa de abandonar a retórica vazia da participação e assumir que o comum exige estruturas, processos e instituições que o tornem possível. Não basta apelar ao espírito comunitário; é preciso criar condições materiais para que ele floresça. O comum não se constrói com discursos inspiradores, mas com políticas públicas que promovam igualdade, justiça e solidariedade. O comum não se alimenta de promessas, mas de práticas. O comum não se decreta; constrói‑se.

A reinvenção do comum exige, finalmente, uma coragem que tem sido rara; a coragem de admitir que o modelo actual está esgotado. Que a política, tal como tem sido praticada, perdeu a capacidade de mobilizar. Que a espiritualidade, tal como tem sido consumida, perdeu a capacidade de transformar. Que o individualismo, tal como tem sido celebrado, perdeu a capacidade de sustentar uma vida digna. A reinvenção do comum não é um luxo intelectual; é uma necessidade vital.

O comum é, no fundo, a arte de viver juntos sem nos destruirmos mutuamente. É a capacidade de reconhecer no outro não um rival, mas um aliado. É a consciência de que a liberdade de cada um depende da liberdade de todos. É a intuição de que a espiritualidade sem política é impotente e de que a política sem espiritualidade é cínica. Reinventar o comum é, portanto, reinventar a própria ideia de humanidade.

E talvez seja precisamente essa a tarefa mais urgente do nosso tempo de recuperar a humanidade perdida entre algoritmos, polarizações, consumos compulsivos e espiritualidades de catálogo. A reinvenção do comum não é um regresso ao passado, mas uma abertura ao futuro. Um futuro onde a política volta a ser espaço de sentido e a espiritualidade volta a ser força de transformação. Um futuro onde o comum deixa de ser uma palavra bonita e passa a ser uma prática quotidiana. Um futuro onde o “nós” volta a ter lugar num mundo que se habituou a viver no “eu”.

Bibliografia

Arendt, Hannah - The Human Condition. Chicago: University of Chicago Press, 1958.

Bauman, Zygmunt - Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000.

Bennett, Jane - Vibrant Matter: A Political Ecology of Things. Durham: Duke University Press, 2010.

Butler, Judith - Notes Toward a Performative Theory of Assembly. Cambridge: Harvard University Press, 2015.

Dardot, Pierre & Laval, Christian - Commun: Essai sur la révolution au XXIe siècle. Paris: La Découverte, 2014.

Elias, Norbert - The Society of Individuals. Oxford: Blackwell, 1991.

Gauchet, Marcel - La Religion dans la démocratie. Paris: Gallimard, 1998.

Habermas, Jürgen - Between Naturalism and Religion. Cambridge: Polity Press, 2008.

Illouz, Eva - Cold Intimacies: The Making of Emotional Capitalism. Cambridge: Polity Press, 2007.

Taylor, Charles - A Secular Age. Cambridge: Harvard University Press, 2007.

Todorov, Tzvetan - The Fear of Barbarians. Chicago: University of Chicago Press, 2010.

Zamora, Daniel & Behrent, Michael (eds.) - Foucault and Neoliberalism. Cambridge: Polity Press, 2016.

Wednesday, 10 June 2026

O TEMPO DA INCERTEZA E A ÉTICA DA ESPERANÇA

 



Há épocas históricas que se anunciam com clarins, outras com estrondos, e outras ainda com aquele silêncio desconfortável de quem sabe que algo está a ruir mas prefere não admitir. O nosso tempo, este admirável mundo novo de algoritmos, pandemias emocionais e líderes que confundem governar com fazer lives pertence à terceira categoria. Vivemos num tempo da incerteza, não porque o mundo se tenha tornado mais imprevisível, mas porque perdemos o hábito de lidar com a imprevisibilidade. A incerteza sempre existiu; o que desapareceu foi a nossa capacidade de a suportar sem dramatismos, teorias conspirativas e convicção infantil de que o universo nos deve garantias.

A modernidade líquida essa velha conhecida que se tornou cliché académico dissolveu estruturas, certezas e até a paciência colectiva. Mas não dissolveu a necessidade humana de sentido. E é precisamente aqui que entra a ética da esperança, não como anestesia espiritual, mas como disciplina moral que impede o colapso total da convivência humana. A esperança, ao contrário do que pregam os vendedores de autoajuda, não é um estado de espírito fofinho; é um acto de resistência. É uma escolha ética, não um capricho emocional.

1. A incerteza como condição permanente

A incerteza tornou-se o nosso habitat natural. Não aquela incerteza filosófica, elegante, que alimenta debates sobre o livre-arbítrio ou a natureza humana, mas uma incerteza mais prosaica, quase burocrática pois não sabemos se o salário chega ao fim do mês, se o sistema de saúde aguenta mais um inverno, se a escola pública ainda existe daqui a cinco anos e se a democracia resiste à próxima eleição ou ao próximo tweet inflamado.

O cidadão contemporâneo vive num estado de alerta permanente, como se estivesse sempre à espera de uma notificação que confirma o pior. E, de facto, confirma. A economia global comporta-se como um adolescente instável; a política internacional parece escrita por argumentistas de séries distópicas; e a tecnologia, que prometia libertação, transformou-se num espelho ampliado das nossas neuroses colectivas.

A incerteza não é apenas factual; é emocional. É a sensação de que tudo pode mudar de um dia para o outro, e geralmente para pior. É o desconforto de viver num mundo onde a estabilidade é tratada como um luxo vintage, ao nível de máquinas de escrever ou telefones fixos.

2. A erosão das narrativas de segurança

Durante décadas, acreditámos que o progresso era inevitável. Que a ciência resolveria tudo, que a democracia se consolidaria e que a globalização traria prosperidade universal. Hoje, essas narrativas parecem tão ingénuas quanto acreditar no Pai Natal. A ciência continua brilhante, mas é sabotada por desinformação viral; a democracia continua formalmente viva, mas politicamente anémica; e a globalização revelou-se um jogo desigual onde alguns acumulam riqueza e outros acumulam ressentimento.

A erosão das narrativas de segurança deixou-nos órfãos de sentido. Sem grandes histórias colectivas, cada um inventa a sua própria mitologia privada, frequentemente alimentada por gurus digitais, influencers iluminados e especialistas improvisados. A verdade tornou-se opcional; a opinião, obrigatória.

Neste cenário, a incerteza não é apenas uma condição externa, mas uma construção interna. É o resultado de um mundo que perdeu o fio condutor e tenta remendar-se com slogans motivacionais e políticas públicas que parecem escritas em guardanapos de café.

3. A esperança como disciplina ética

É precisamente neste caos que a ética da esperança se torna necessária. Não a esperança ingénua, mas a esperança lúcida aquela que reconhece o desastre, mas recusa a rendição. A esperança ética não promete finais felizes; promete apenas que não desistiremos antes do fim.

A esperança ética é uma forma de responsabilidade. É o compromisso de agir mesmo quando não há garantias. É a recusa em transformar o pessimismo numa desculpa para a inércia. É a consciência de que, embora não controlemos o mundo, controlamos a forma como nele habitamos.

A esperança ética exige coragem. Não a coragem épica dos heróis mitológicos, mas a coragem quotidiana de quem insiste em manter a dignidade num mundo que a tenta roubar. É a coragem de educar quando a escola parece falhar, de cuidar quando o sistema de saúde colapsa, de participar quando a política desencanta.

4. A esperança como acto político

A esperança, quando levada a sério, é profundamente política. Não porque se alinhe com partidos ou ideologias, mas porque desafia a lógica dominante do cinismo. O cinismo é confortável pois permite criticar tudo sem fazer nada. A esperança, pelo contrário, obriga à acção. Obriga a imaginar alternativas, a construir possibilidades e a recusar a narrativa fatalista de que “não há nada a fazer”.

A esperança política não é optimismo; é compromisso. É a recusa em aceitar que a desigualdade é inevitável, que a injustiça é natural e que a violência é destino. É a convicção de que a sociedade pode ser diferente não perfeita, mas menos absurda.

Num tempo em que a política se tornou espectáculo, a esperança ética é um acto de subversão. É a recusa em ser espectador. É a insistência em ser cidadão.

5. A esperança como resistência cultural

Vivemos numa cultura saturada de imediatismo. Tudo tem de ser rápido, instantâneo  e descartável. A esperança, porém, é lenta. É paciente. É quase antiquada. Exige tempo, persistência e uma certa teimosia moral. É, por isso, profundamente contracultural.

A cultura dominante promove o medo porque o medo vende. Vende segurança privada, vende suplementos vitamínicos, vende cursos de produtividade, vende narrativas apocalípticas. A esperança, pelo contrário, não vende nada. Não é lucrativa. Não gera cliques. Não viraliza.

Por isso mesmo, é revolucionária.

A esperança ética é uma forma de resistência cultural contra a lógica do desespero. É a recusa em permitir que o medo determine o futuro. É a afirmação de que, apesar de tudo, ainda há espaço para a construção, para o cuidado, para a solidariedade.

6. A esperança como prática quotidiana

A esperança não se manifesta apenas em grandes gestos. Manifesta-se sobretudo no quotidiano, na forma como tratamos os outros, na forma como educamos, na forma como trabalhamos e na forma como participamos na vida pública.

É fácil desesperar; difícil é persistir. A esperança ética exige disciplina emocional, intelectual e social. Exige que resistamos à tentação do fatalismo, que cultivemos a lucidez sem cair no desespero, que mantenhamos a capacidade de imaginar futuros possíveis mesmo quando o presente parece um beco sem saída.

A esperança ética é, no fundo, uma forma de maturidade. É a consciência de que o mundo não nos deve nada, mas nós devemos algo ao mundo.

7. Conclusão: a esperança como legado

O tempo da incerteza não vai desaparecer. Não há vacina para a imprevisibilidade. O que podemos e devemos construir é uma ética da esperança que nos permita atravessar este tempo sem perder a humanidade.

A esperança ética não é uma fuga; é um compromisso. Não é uma ilusão; é uma escolha. Não é um luxo; é uma necessidade.

Num mundo que oscila entre o pânico e a apatia, a esperança é o último acto de lucidez. É o gesto que impede o colapso moral. É a força que nos lembra que, apesar de tudo, ainda há futuro e que esse futuro depende de nós.

Bibliografia

·         Arendt, Hannah - The Human Condition. Chicago: University of Chicago Press, 1958.

·         Bauman, Zygmunt - Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000.

·         Bloch, Ernst - Das Prinzip Hoffnung. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1959.

·         Giddens, Anthony - Modernity and Self‑Identity. Cambridge: Polity Press, 1991.

·         Levinas, Emmanuel - Totalité et Infini. La Haye: Martinus Nijhoff, 1961.

·         Ricoeur, Paul - Soi‑même comme un autre. Paris: Seuil, 1990.

·         Sennett, Richard - The Culture of the New Capitalism. New Haven: Yale University Press, 2006.

·         Taylor, Charles - A Secular Age. Cambridge: Harvard University Press, 2007.

·         Žižek, Slavoj - Living in the End Times. London: Verso, 2010.

A METAMORFOSE DAS SOCIEDADES LÍQUIDAS

 


A modernidade líquida, essa invenção sociológica que pretendia explicar a leveza dos tempos, transformou‑se entretanto numa espécie de lama conceptual que escorre, mancha, cola-se aos dedos e, sobretudo, impede qualquer tentativa de caminhar com firmeza. O que antes era fluidez tornou-se viscosidade; o que era mobilidade converteu-se em deriva; e o que se anunciava como libertação das estruturas rígidas acabou por produzir uma sociedade que se dissolve ao menor toque, como um castelo de areia construído por um optimista ingénuo à beira-mar. A metamorfose das sociedades líquidas não é, portanto, um processo de evolução, mas uma mutação caprichosa, quase grotesca, em que a promessa de liberdade se converteu numa coreografia de incertezas.

A liquidez, celebrada como metáfora da flexibilidade, acabou por revelar a sua verdadeira vocação que é a incapacidade de fixar qualquer coisa que não seja a própria instabilidade. As instituições, outrora pilares sólidos, tornaram-se estruturas de gelatina que tremem ao menor sopro de contestação. A política, que deveria ser o espaço da deliberação, transformou-se num teatro de sombras onde cada actor improvisa conforme a direcção do vento digital. A economia, sempre tão orgulhosa da sua racionalidade, vive agora num estado permanente de volatilidade emocional, reagindo a rumores com a mesma intensidade com que um adolescente reage a uma mensagem deixada em “visto”. E a sociedade civil, essa entidade que se imaginava vigilante e crítica, parece ter-se dissolvido num mar de opiniões instantâneas, indignações descartáveis e causas que duram o tempo de um “scroll”.

A metamorfose das sociedades líquidas manifesta-se sobretudo na forma como o indivíduo se tornou simultaneamente soberano e irrelevante. Soberano, porque lhe repetem incessantemente que é livre, autónomo, empreendedor de si mesmo, gestor da sua marca pessoal, curador da sua identidade. Irrelevante, porque essa mesma liberdade se exerce num espaço saturado, onde cada gesto se perde na torrente de milhões de gestos idênticos. A individualidade, outrora conquista, tornou-se mercadoria barata em que todos a possuem, logo ninguém a distingue. A liquidez prometia libertar o sujeito das amarras colectivas; o que conseguiu foi transformá-lo num náufrago que, em vez de remar, actualiza o perfil.

A metamorfose é ainda visível na relação com o tempo. A sociedade líquida vivia no presente contínuo, mas a sua versão metamorfoseada vive no presente instantâneo. O futuro tornou-se uma ficção administrativa, útil apenas para relatórios estratégicos que ninguém lê; o passado, um arquivo digital que se revisita apenas quando convém reescrever a narrativa. O tempo deixou de ser uma linha e passou a ser um mosaico de momentos desconexos, cada um exigindo atenção imediata, cada um competindo com todos os outros pela sobrevivência na economia da distracção. A aceleração, que antes era sinal de progresso, tornou-se um vício colectivo em que ninguém sabe para onde vai, mas todos exigem chegar depressa.

A metamorfose das sociedades líquidas também se revela na forma como lidam com a verdade. A verdade, essa entidade já de si frágil, foi dissolvida num caldo morno de opiniões equivalentes. A pós-verdade não é uma era; é um sintoma. O que se metamorfoseou não foi a verdade, mas a disposição para a reconhecer. A sociedade líquida tolerava múltiplas interpretações; a sociedade metamorfoseada tolera múltiplas ficções. A diferença é subtil, mas devastadora. Onde antes havia debate, há agora competição narrativa; onde antes havia argumentação, há agora performance; onde antes havia factos, há agora versões. A verdade tornou-se um produto perecível, embalado para consumo rápido e descartável.

A metamorfose é igualmente evidente na forma como o poder circula. O poder líquido era difuso, escorregadio, difícil de localizar. O poder metamorfoseado é ainda mais perverso; é invisível, mas omnipresente; é suave, mas intrusivo; é flexível, mas implacável. Não se exerce através de proibições, mas de sugestões; não impõe, mas recomenda; não vigia, mas recolhe dados. O cidadão, convencido de que é livre, oferece voluntariamente a sua privacidade em troca de conveniência. A metamorfose das sociedades líquidas produziu um novo tipo de servidão; a servidão confortável, higiénica, personalizada. O poder já não precisa de se impor; basta-lhe ser útil.

A metamorfose também se manifesta na esfera emocional. A sociedade líquida promovia relações leves, vínculos flexíveis, afectos descartáveis. A sociedade metamorfoseada levou essa lógica ao paroxismo pois agora, até as emoções são geridas como aplicações móveis, com actualizações constantes, notificações intrusivas e uma obsolescência programada que dispensa qualquer investimento profundo. O amor tornou-se um algoritmo; a amizade, uma lista de contactos; a intimidade, um conjunto de dados partilháveis. A liquidez prometia liberdade afectiva; a metamorfose produziu uma solidão hiperconectada, onde todos falam com todos e ninguém escuta ninguém.

A metamorfose das sociedades líquidas é ainda visível na forma como lidam com o risco. O risco, que antes era um elemento inerente à vida, tornou-se agora um inimigo a ser eliminado. A sociedade metamorfoseada exige segurança total, previsibilidade absoluta, garantias permanentes. Paradoxalmente, quanto mais tenta eliminar o risco, mais vulnerável se torna. A obsessão pela segurança produz fragilidade; a recusa da incerteza produz paralisia. A sociedade metamorfoseada vive num estado de ansiedade estrutural, onde cada ameaça é amplificada, cada problema é uma crise, cada crise é um apocalipse. A liquidez transformou-se em pânico.

A metamorfose também se revela na relação com o espaço. A sociedade líquida dissolvia fronteiras; a sociedade metamorfoseada multiplica muros. Não muros físicos pois esses são demasiado óbvios, mas muros simbólicos, culturais, identitários. Cada grupo reivindica o seu território moral, a sua narrativa exclusive e a sua sensibilidade inegociável. A coexistência tornou-se um exercício de equilíbrio instável, onde qualquer palavra pode ser interpretada como agressão e qualquer discordância como violência. A liquidez prometia pluralismo; a metamorfose produziu tribalismo.

A metamorfose das sociedades líquidas culmina numa ironia suprema em que a fluidez que deveria libertar acabou por aprisionar. A ausência de estruturas não produziu autonomia, mas desorientação; a multiplicidade de escolhas não produziu liberdade, mas exaustão; a conectividade não produziu comunidade, mas dispersão. A sociedade metamorfoseada vive num estado permanente de transição, mas sem destino. É uma metamorfose sem forma final, um processo que se alimenta de si mesmo, uma transformação que nunca se completa porque não sabe o que quer ser.

No fundo, a metamorfose das sociedades líquidas é o retrato de uma época que perdeu o sentido da solidez, mas também o da fluidez. Uma época que se habituou a viver entre ruínas e promessas, entre entusiasmos efémeros e frustrações duradouras. Uma época que celebra a mudança, mas teme as consequências; que exalta a liberdade, mas foge da responsabilidade; que proclama a inovação, mas recicla incessantemente as mesmas ideias. A metamorfose não é evolução; é oscilação. E a sociedade metamorfoseada oscila entre o desejo de ser leve e o medo de desaparecer.

Talvez a verdadeira metamorfose esteja ainda por acontecer; aquela em que a sociedade reconhece que a liquidez não é destino, mas diagnóstico. Que a fluidez não é virtude, mas condição. Que a liberdade não se mede pela ausência de limites, mas pela capacidade de escolher limites que façam sentido. Até lá, continuaremos a navegar neste mar viscoso, convencidos de que avançamos, quando na verdade apenas flutuamos.

Bibliografia

Bauman, Z. (2000). Liquid Modernity. Polity Press.

Bauman, Z. (2005). Liquid Life. Polity Press. Bauman, Z. (2007).

Liquid Times: Living in an Age of Uncertainty. Polity Press. Bauman, Z., & Bordoni, C. (2014).

State of Crisis. Polity Press. Giddens, A. (1991).

Modernity and Self‑Identity: Self and Society in the Late Modern Age. Polity Press. Beck, U. (1992).

Risk Society: Towards a New Modernity. Sage. Han, B.-C. (2015).

The Burnout Society. Stanford University Press.

Sennett, R. (1998). The Corrosion of Character: The Personal Consequences of Work in the New Capitalism.

W. W. Norton. Castells, M. (2010). The Rise of the Network Society.

Wiley‑Blackwell. Lipovetsky, G. (2005). Hypermodern Times. Polity Press.

A REINVENÇÃO DO COMUM: POLÍTICA E ESPIRITUALIDADE

  A ideia de “comum” tornou‑se, nas últimas décadas, uma espécie de relíquia conceptual que todos a evocam, poucos a entendem e quase ningué...