A ideia de “comum” tornou‑se, nas últimas décadas, uma espécie de relíquia conceptual que todos a evocam, poucos a entendem e quase ninguém a pratica. É o equivalente político daquelas peças de museu que todos admiram à distância, mas que ninguém ousa tocar, não vá o alarme disparar e revelar a fragilidade da nossa convivência colectiva. A reinvenção do comum surge, assim, como uma urgência civilizacional, não porque o comum tenha desaparecido, mas porque foi sequestrado por discursos que o transformaram num slogan vazio, útil para campanhas eleitorais, homilias piedosas ou programas de governo que prometem mundos e fundos enquanto entregam migalhas e austeridade. A espiritualidade, por sua vez, foi convertida num produto de supermercado emocional em que há espiritualidade detox, espiritualidade mindfulness, espiritualidade para executivos exaustos e espiritualidade para influencers que descobriram que a iluminação rende mais likes do que a maquilhagem. O encontro entre política e espiritualidade, neste contexto, parece tão improvável quanto um debate parlamentar onde todos se ouvem ou uma assembleia sinodal onde ninguém tenta controlar a agenda.
Contudo, é precisamente
neste cruzamento improvável que reside a possibilidade de reinventar o comum. A
política, esvaziada de transcendência, tornou‑se uma técnica de gestão de
danos; a espiritualidade, amputada da dimensão comunitária, converteu‑se num
exercício de auto‑ajuda com incenso. Ambas perderam a capacidade de gerar
sentido colectivo, e é essa falência partilhada que abre espaço para uma
reconfiguração profunda. A reinvenção do comum exige, antes de mais, desmontar
a ilusão confortável de que o comum é um dado natural. Não é. O comum é uma
construção, um trabalho, uma prática quotidiana que implica conflito,
negociação, renúncia e, sobretudo, uma ética que não se esgota na contabilidade
dos interesses individuais. O comum não é o que sobra depois de cada um ficar
com a sua parte; é o que só existe porque todos se comprometem com algo maior
do que si próprios.
A política
contemporânea, porém, habituou‑se a tratar o cidadão como consumidor e o
eleitor como cliente. O resultado é um espaço público onde o debate se reduz a
slogans, a participação se limita ao voto ocasional e a responsabilidade
colectiva se dissolve na confortável ficção de que “alguém” quer seja o Estado,
a Europa, a ONU ou o vizinho do lado há‑de resolver o que não queremos
enfrentar. Esta infantilização cívica é incompatível com qualquer ideia séria
de comum. O comum não se delega, não se terceiriza, não se subcontrata. O comum
exige presença, corpo e voz. Exige,
sobretudo, uma espiritualidade que não seja fuga, mas enraizamento.
É aqui que a
espiritualidade entra como elemento subversivo. Não a espiritualidade
higienizada, vendida em embalagens recicláveis com promessas de serenidade
instantânea, mas a espiritualidade que confronta, que desinstala, que obriga a
olhar o outro não como obstáculo, mas como espelho. Uma espiritualidade que
recusa a lógica do “eu primeiro” e que insiste na dignidade do “nós”. Esta
espiritualidade não é necessariamente religiosa, embora possa sê‑lo; não é
necessariamente institucional, embora possa dialogar com instituições; não é
necessariamente mística, embora possa abrir espaço ao mistério. O que a define
é a capacidade de gerar sentido partilhado, de convocar uma ética da
responsabilidade e de sustentar práticas de cuidado que não dependem de modas
nem de algoritmos.
A reinvenção do comum
passa, portanto, por recuperar a dimensão espiritual da política não no sentido
teocrático, mas no sentido antropológico. A política precisa de reencontrar a
sua vocação de construção de sentido colectivo, de criação de horizontes, de
mobilização de energias que não se esgotam na gestão do quotidiano. Uma
política sem transcendência é uma política míope, condenada a gerir crises em
vez de as prevenir, a apagar fogos em vez de construir casas, a reagir em vez
de imaginar. A transcendência, neste contexto, não é um dogma, mas uma abertura;
a capacidade de pensar para além do imediato, de agir para além do interesse
próprioe de decidir para além do cálculo eleitoral.
A espiritualidade, por
sua vez, precisa de recuperar a sua dimensão política não no sentido
partidário, mas no sentido comunitário. Uma espiritualidade que se refugia na
interioridade e ignora a injustiça social é apenas uma forma sofisticada de narcisismo.
Uma espiritualidade que se limita a oferecer consolo sem exigir transformação é
cúmplice da ordem estabelecida. Uma espiritualidade que promete paz interior
enquanto o mundo arde é, no fundo, uma anestesia. A verdadeira espiritualidade
é inquieta, é exigent e é incómoda. Não se contenta com a harmonia individual;
procura a justiça colectiva. Não se satisfaz com a serenidade privada; exige a
dignidade pública. Não se limita a curar feridas; pergunta quem as provoca.
A reinvenção do comum
exige, assim, uma aliança entre política e espiritualidade que recuse tanto o
cinismo tecnocrático quanto o escapismo místico. O cinismo tecnocrático reduz o
mundo a números, gráficos e indicadores, esquecendo que por detrás de cada
estatística há vidas concretas. O escapismo místico, por sua vez, transforma a
espiritualidade numa bolha onde tudo é luz, energia e vibração, desde que não
se fale de pobreza, desigualdade ou violência estrutural. Entre estes dois
extremos, o comum desaparece, esmagado pela indiferença de uns e pela evasão de
outros.
A reinvenção do comum
implica, também, uma crítica mordaz às formas contemporâneas de individualismo.
O indivíduo moderno foi educado para acreditar que a liberdade consiste em não
depender de ninguém, que a autonomia é incompatível com a interdependência e
que a realização pessoal é um projecto exclusivamente privado. Esta narrativa,
repetida até à exaustão, produziu sociedades onde a solidão é epidémica, a
confiança é escassa e o bem‑estar é medido em likes. O comum, neste cenário, é
percebido como ameaça à liberdade, à propriedade e à identidade. Reinventar o
comum significa desmontar esta fantasia e reconhecer que a liberdade sem
vínculos é apenas uma forma elegante de isolamento.
A espiritualidade pode
oferecer aqui uma contribuição decisiva, ao recordar que o ser humano não é uma
ilha, mas um arquipélago. Que a identidade não se constrói contra o outro, mas
com o outro. Que a plenitude não se alcança acumulando, mas partilhando. Que a
vida não se realiza na competição permanente, mas na cooperação criativa. Esta
visão não é romântica; é profundamente realista. A interdependência não é uma
escolha; é uma condição. A questão não é saber se dependemos uns dos outros,
mas como transformamos essa dependência em força colectiva em vez de
fragilidade social.
A política, por sua
vez, precisa de abandonar a retórica vazia da participação e assumir que o
comum exige estruturas, processos e instituições que o tornem possível. Não
basta apelar ao espírito comunitário; é preciso criar condições materiais para
que ele floresça. O comum não se constrói com discursos inspiradores, mas com
políticas públicas que promovam igualdade, justiça e solidariedade. O comum não
se alimenta de promessas, mas de práticas. O comum não se decreta; constrói‑se.
A reinvenção do comum
exige, finalmente, uma coragem que tem sido rara; a coragem de admitir que o
modelo actual está esgotado. Que a política, tal como tem sido praticada,
perdeu a capacidade de mobilizar. Que a espiritualidade, tal como tem sido
consumida, perdeu a capacidade de transformar. Que o individualismo, tal como
tem sido celebrado, perdeu a capacidade de sustentar uma vida digna. A
reinvenção do comum não é um luxo intelectual; é uma necessidade vital.
O comum é, no fundo, a
arte de viver juntos sem nos destruirmos mutuamente. É a capacidade de
reconhecer no outro não um rival, mas um aliado. É a consciência de que a
liberdade de cada um depende da liberdade de todos. É a intuição de que a
espiritualidade sem política é impotente e de que a política sem
espiritualidade é cínica. Reinventar o comum é, portanto, reinventar a própria
ideia de humanidade.
E talvez seja
precisamente essa a tarefa mais urgente do nosso tempo de recuperar a
humanidade perdida entre algoritmos, polarizações, consumos compulsivos e
espiritualidades de catálogo. A reinvenção do comum não é um regresso ao
passado, mas uma abertura ao futuro. Um futuro onde a política volta a ser
espaço de sentido e a espiritualidade volta a ser força de transformação. Um
futuro onde o comum deixa de ser uma palavra bonita e passa a ser uma prática
quotidiana. Um futuro onde o “nós” volta a ter lugar num mundo que se habituou
a viver no “eu”.
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