Friday, 12 June 2026

A REINVENÇÃO DO COMUM: POLÍTICA E ESPIRITUALIDADE

 


A ideia de “comum” tornou‑se, nas últimas décadas, uma espécie de relíquia conceptual que todos a evocam, poucos a entendem e quase ninguém a pratica. É o equivalente político daquelas peças de museu que todos admiram à distância, mas que ninguém ousa tocar, não vá o alarme disparar e revelar a fragilidade da nossa convivência colectiva. A reinvenção do comum surge, assim, como uma urgência civilizacional, não porque o comum tenha desaparecido, mas porque foi sequestrado por discursos que o transformaram num slogan vazio, útil para campanhas eleitorais, homilias piedosas ou programas de governo que prometem mundos e fundos enquanto entregam migalhas e austeridade. A espiritualidade, por sua vez, foi convertida num produto de supermercado emocional em que  há espiritualidade detox, espiritualidade mindfulness, espiritualidade para executivos exaustos e espiritualidade para influencers que descobriram que a iluminação rende mais likes do que a maquilhagem. O encontro entre política e espiritualidade, neste contexto, parece tão improvável quanto um debate parlamentar onde todos se ouvem ou uma assembleia sinodal onde ninguém tenta controlar a agenda.

Contudo, é precisamente neste cruzamento improvável que reside a possibilidade de reinventar o comum. A política, esvaziada de transcendência, tornou‑se uma técnica de gestão de danos; a espiritualidade, amputada da dimensão comunitária, converteu‑se num exercício de auto‑ajuda com incenso. Ambas perderam a capacidade de gerar sentido colectivo, e é essa falência partilhada que abre espaço para uma reconfiguração profunda. A reinvenção do comum exige, antes de mais, desmontar a ilusão confortável de que o comum é um dado natural. Não é. O comum é uma construção, um trabalho, uma prática quotidiana que implica conflito, negociação, renúncia e, sobretudo, uma ética que não se esgota na contabilidade dos interesses individuais. O comum não é o que sobra depois de cada um ficar com a sua parte; é o que só existe porque todos se comprometem com algo maior do que si próprios.

A política contemporânea, porém, habituou‑se a tratar o cidadão como consumidor e o eleitor como cliente. O resultado é um espaço público onde o debate se reduz a slogans, a participação se limita ao voto ocasional e a responsabilidade colectiva se dissolve na confortável ficção de que “alguém” quer seja o Estado, a Europa, a ONU ou o vizinho do lado há‑de resolver o que não queremos enfrentar. Esta infantilização cívica é incompatível com qualquer ideia séria de comum. O comum não se delega, não se terceiriza, não se subcontrata. O comum exige presença,  corpo e voz. Exige, sobretudo, uma espiritualidade que não seja fuga, mas enraizamento.

É aqui que a espiritualidade entra como elemento subversivo. Não a espiritualidade higienizada, vendida em embalagens recicláveis com promessas de serenidade instantânea, mas a espiritualidade que confronta, que desinstala, que obriga a olhar o outro não como obstáculo, mas como espelho. Uma espiritualidade que recusa a lógica do “eu primeiro” e que insiste na dignidade do “nós”. Esta espiritualidade não é necessariamente religiosa, embora possa sê‑lo; não é necessariamente institucional, embora possa dialogar com instituições; não é necessariamente mística, embora possa abrir espaço ao mistério. O que a define é a capacidade de gerar sentido partilhado, de convocar uma ética da responsabilidade e de sustentar práticas de cuidado que não dependem de modas nem de algoritmos.

A reinvenção do comum passa, portanto, por recuperar a dimensão espiritual da política não no sentido teocrático, mas no sentido antropológico. A política precisa de reencontrar a sua vocação de construção de sentido colectivo, de criação de horizontes, de mobilização de energias que não se esgotam na gestão do quotidiano. Uma política sem transcendência é uma política míope, condenada a gerir crises em vez de as prevenir, a apagar fogos em vez de construir casas, a reagir em vez de imaginar. A transcendência, neste contexto, não é um dogma, mas uma abertura; a capacidade de pensar para além do imediato, de agir para além do interesse próprioe de decidir para além do cálculo eleitoral.

A espiritualidade, por sua vez, precisa de recuperar a sua dimensão política não no sentido partidário, mas no sentido comunitário. Uma espiritualidade que se refugia na interioridade e ignora a injustiça social é apenas uma forma sofisticada de narcisismo. Uma espiritualidade que se limita a oferecer consolo sem exigir transformação é cúmplice da ordem estabelecida. Uma espiritualidade que promete paz interior enquanto o mundo arde é, no fundo, uma anestesia. A verdadeira espiritualidade é inquieta, é exigent e é incómoda. Não se contenta com a harmonia individual; procura a justiça colectiva. Não se satisfaz com a serenidade privada; exige a dignidade pública. Não se limita a curar feridas; pergunta quem as provoca.

A reinvenção do comum exige, assim, uma aliança entre política e espiritualidade que recuse tanto o cinismo tecnocrático quanto o escapismo místico. O cinismo tecnocrático reduz o mundo a números, gráficos e indicadores, esquecendo que por detrás de cada estatística há vidas concretas. O escapismo místico, por sua vez, transforma a espiritualidade numa bolha onde tudo é luz, energia e vibração, desde que não se fale de pobreza, desigualdade ou violência estrutural. Entre estes dois extremos, o comum desaparece, esmagado pela indiferença de uns e pela evasão de outros.

A reinvenção do comum implica, também, uma crítica mordaz às formas contemporâneas de individualismo. O indivíduo moderno foi educado para acreditar que a liberdade consiste em não depender de ninguém, que a autonomia é incompatível com a interdependência e que a realização pessoal é um projecto exclusivamente privado. Esta narrativa, repetida até à exaustão, produziu sociedades onde a solidão é epidémica, a confiança é escassa e o bem‑estar é medido em likes. O comum, neste cenário, é percebido como ameaça à liberdade, à propriedade e à identidade. Reinventar o comum significa desmontar esta fantasia e reconhecer que a liberdade sem vínculos é apenas uma forma elegante de isolamento.

A espiritualidade pode oferecer aqui uma contribuição decisiva, ao recordar que o ser humano não é uma ilha, mas um arquipélago. Que a identidade não se constrói contra o outro, mas com o outro. Que a plenitude não se alcança acumulando, mas partilhando. Que a vida não se realiza na competição permanente, mas na cooperação criativa. Esta visão não é romântica; é profundamente realista. A interdependência não é uma escolha; é uma condição. A questão não é saber se dependemos uns dos outros, mas como transformamos essa dependência em força colectiva em vez de fragilidade social.

A política, por sua vez, precisa de abandonar a retórica vazia da participação e assumir que o comum exige estruturas, processos e instituições que o tornem possível. Não basta apelar ao espírito comunitário; é preciso criar condições materiais para que ele floresça. O comum não se constrói com discursos inspiradores, mas com políticas públicas que promovam igualdade, justiça e solidariedade. O comum não se alimenta de promessas, mas de práticas. O comum não se decreta; constrói‑se.

A reinvenção do comum exige, finalmente, uma coragem que tem sido rara; a coragem de admitir que o modelo actual está esgotado. Que a política, tal como tem sido praticada, perdeu a capacidade de mobilizar. Que a espiritualidade, tal como tem sido consumida, perdeu a capacidade de transformar. Que o individualismo, tal como tem sido celebrado, perdeu a capacidade de sustentar uma vida digna. A reinvenção do comum não é um luxo intelectual; é uma necessidade vital.

O comum é, no fundo, a arte de viver juntos sem nos destruirmos mutuamente. É a capacidade de reconhecer no outro não um rival, mas um aliado. É a consciência de que a liberdade de cada um depende da liberdade de todos. É a intuição de que a espiritualidade sem política é impotente e de que a política sem espiritualidade é cínica. Reinventar o comum é, portanto, reinventar a própria ideia de humanidade.

E talvez seja precisamente essa a tarefa mais urgente do nosso tempo de recuperar a humanidade perdida entre algoritmos, polarizações, consumos compulsivos e espiritualidades de catálogo. A reinvenção do comum não é um regresso ao passado, mas uma abertura ao futuro. Um futuro onde a política volta a ser espaço de sentido e a espiritualidade volta a ser força de transformação. Um futuro onde o comum deixa de ser uma palavra bonita e passa a ser uma prática quotidiana. Um futuro onde o “nós” volta a ter lugar num mundo que se habituou a viver no “eu”.

Bibliografia

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Bauman, Zygmunt - Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000.

Bennett, Jane - Vibrant Matter: A Political Ecology of Things. Durham: Duke University Press, 2010.

Butler, Judith - Notes Toward a Performative Theory of Assembly. Cambridge: Harvard University Press, 2015.

Dardot, Pierre & Laval, Christian - Commun: Essai sur la révolution au XXIe siècle. Paris: La Découverte, 2014.

Elias, Norbert - The Society of Individuals. Oxford: Blackwell, 1991.

Gauchet, Marcel - La Religion dans la démocratie. Paris: Gallimard, 1998.

Habermas, Jürgen - Between Naturalism and Religion. Cambridge: Polity Press, 2008.

Illouz, Eva - Cold Intimacies: The Making of Emotional Capitalism. Cambridge: Polity Press, 2007.

Taylor, Charles - A Secular Age. Cambridge: Harvard University Press, 2007.

Todorov, Tzvetan - The Fear of Barbarians. Chicago: University of Chicago Press, 2010.

Zamora, Daniel & Behrent, Michael (eds.) - Foucault and Neoliberalism. Cambridge: Polity Press, 2016.

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