Friday, 6 February 2026

Dez Maneiras pelas Quais as Alterações Climáticas Estão a Impactar a Segurança Alimentar Global em 2026



As alterações climáticas impulsionadas principalmente pela actividade humana continuam a remodelar os sistemas que sustentam a produção alimentar global. No início de 2026, os efeitos cumulativos do aumento das temperaturas, da alteração dos padrões de precipitação e da crescente frequência de eventos meteorológicos extremos intensificaram as pressões sobre os sistemas agrícolas e as cadeias de abastecimento alimentar. Estas perturbações cruzam-se agora com instabilidade económica, conflitos e deslocações populacionais, criando uma crise alimentar global multidimensional. De acordo com o Global Outlook 2026 do Programa Alimentar Mundial (PAM), 318 milhões de pessoas enfrentam fome aguda, mais do dobro do valor registado em 2019, sendo os choques climáticos identificados como um dos principais factores deste agravamento.

Impactos Directos na Produtividade Agrícola

1. Queda dos Rendimentos das Culturas Básicas Devido ao Stress Térmico

As ondas de calor durante fases críticas de crescimento continuam a reduzir os rendimentos de milho, trigo e outras culturas essenciais em regiões como o Sul da Ásia, o Mediterrâneo e o Midwest dos Estados Unidos. O IPCC confirma que o aquecimento observado afectou negativamente os rendimentos em muitas regiões de latitudes mais baixas, com o stress térmico a provocar esterilidade durante a floração e a reduzir a formação de grão.

2. Intensificação das Secas e Variabilidade da Precipitação

A imprevisibilidade dos padrões de chuva está a agravar as condições de seca em regiões sensíveis ao clima, como o Corno de África. Estas alterações comprometem os sistemas agrícolas de subsistência e o pastoreio, que dependem de estações chuvosas fiáveis. O IPCC assinala que as zonas áridas de África e as regiões montanhosas da Ásia e da América do Sul enfrentam insegurança alimentar induzida pelo clima.

3. Inundações e Perda de Solo Fértil Devido a Chuvas Extremas

Por outro lado, eventos de precipitação intensificada especialmente durante as monções continuam a destruir culturas em crescimento e a erodir solos férteis. Campos danificados por cheias no Sudeste Asiático e em partes da América do Sul ilustram como os extremos hidrológicos induzidos pelo clima comprometem a estabilidade agrícola.

4. Expansão de Pragas e Doenças das Culturas

Invernos mais amenos permitem que pragas como a lagarta-do-cartucho (Fall Armyworm) sobrevivam e se expandam para novas regiões. Isto aumenta a dependência de pesticidas, eleva os custos de produção e reduz os rendimentos. Estas mudanças biológicas estão alinhadas com conclusões científicas mais amplas que mostram que o clima está a alterar a distribuição de pragas e a aumentar a vulnerabilidade das culturas.

5. Aquecimento e Acidificação dos Oceanos a Ameaçar os Sistemas Alimentares Marinhos

Os ecossistemas marinhos continuam a degradar-se à medida que os oceanos aquecem e se acidificam. O declínio dos recifes de coral essenciais como viveiros de peixes reduz os stocks pesqueiros fundamentais para comunidades costeiras, especialmente nas Ilhas do Pacífico. Esta tendência agrava a insegurança alimentar em regiões pressionadas por stress agrícola induzido pelo clima.

Perturbações nas Cadeias de Abastecimento e nos Meios de Subsistência

6. Eventos Climáticos Extremos a Danificar Redes de Distribuição Alimentar

Tempestades, furacões e cheias prolongadas perturbam cada vez mais as infra-estruturas de transporte e armazenamento. Estes eventos provocam escassez localizada e picos de preços, como observado anteriormente com o impacto do furacão Ian na cadeia de abastecimento de produtos frescos da Florida. O PAM sublinha que os choques climáticos destroem vidas, colheitas e meios de subsistência, comprometendo directamente o acesso aos alimentos.

7. Escassez de Água Devido ao Degelo de Glaciares e à Redução do Manto de Neve

O recuo dos glaciares e a diminuição da neve acumulada continuam a ameaçar a agricultura dependente de irrigação em regiões como o Norte da Índia, a Ásia Central e o Oeste dos Estados Unidos. A competição entre usos agrícolas e urbanos da água está a intensificar-se, impondo decisões difíceis sobre a sua gestão.

8. Degradação dos Solos e Desertificação

Temperaturas mais elevadas aceleram a evaporação e a degradação dos solos, expandindo a desertificação em regiões semiáridas. Agricultores em áreas afectadas estão a abandonar terras, contribuindo para deslocações rurais que é uma das vulnerabilidades destacadas pelo PAM, que observa que populações deslocadas enfrentam níveis mais elevados de insegurança alimentar.

9. Diminuição da Qualidade Nutricional das Culturas Básicas

Níveis elevados de CO₂ atmosférico reduzem a densidade de micronutrientes em culturas essenciais. O IPCC relata que o trigo cultivado sob concentrações elevadas de CO₂ contém 5,9-12,7% menos proteína, além de reduções significativas em zinco e ferro o que representando riscos de saúde pública a longo prazo, mesmo onde a ingestão calórica permanece suficiente.

10. Maior Volatilidade dos Preços Alimentares Globais

Choques de produção induzidos pelo clima, combinados com conflitos e pressões económicas, estão a aumentar a volatilidade dos preços alimentares globais. O PAM alerta que os preços permanecem em níveis de crise, sendo os choques climáticos um dos principais motores desta instabilidade. Os agregados familiares de baixos rendimentos que gastam a maior parte do seu orçamento em alimentação são os mais afectados.

Conclusão

A 31 de Janeiro de 2026, as alterações climáticas não são uma ameaça distante ou abstracta mas uma força presente e acelerada que está a remodelar os sistemas alimentares globais. Desde a queda dos rendimentos agrícolas e a degradação dos ecossistemas marinhos até às perturbações nas cadeias de abastecimento e ao aumento dos preços alimentares, os impactos são multidimensionais e profundamente interligados. Enfrentar estes desafios exige acção global coordenada como investimento em agricultura resiliente ao clima, melhor gestão da água, sistemas de protecção social mais robustos e esforços contínuos para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Sem intervenção decisiva, o número de pessoas em fome aguda de 318 milhões continuará a aumentar.

Bibliografia

Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Climate Change 2023: Synthesis Report. Genebra: IPCC, 2023.

Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribuição do Grupo de Trabalho II para o Sexto Relatório de Avaliação. Cambridge University Press, 2022.

Programa Alimentar Mundial (PAM). Global Outlook 2026: Food Security Update. Roma: PAM, 2026.

Programa Alimentar Mundial (PAM). “Climate Shocks and Food Security.” Relatórios de Situação, 2025-2026.

Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). The State of Food Security and Nutrition in the World 2025. Roma: FAO, 2025.

Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA/UNEP). Adaptation Gap Report 2025. Nairobi: UNEP, 2025.

National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). “Global Climate Indicators 2025–2026.” NOAA Climate Data Center, 2026.

International Food Policy Research Institute (IFPRI). Global Food Policy Report 2025: Climate Resilience. Washington, DC: IFPRI, 2025.

Referências:

https://papers.ssrn.com/sol3/Delivery.cfm/b2bd5c13-3438-476b-b467-f956ffbbe576-MECA.pdf?abstractid=4743919&mirid=1

https://www.frontiersin.org/journals/communication/articles/10.3389/fcomm.2026.1759296/full

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10779241/

https://www.researchgate.net/publication/387958175_Water_scarcity_A_global_hindrance_to_sustainable_development_and_agricultural_production_-_A_critical_review_of_the_impacts_and_adaptation_strategies

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