As alterações climáticas impulsionadas
principalmente pela actividade humana continuam a remodelar os sistemas que
sustentam a produção alimentar global. No início de 2026, os efeitos
cumulativos do aumento das temperaturas, da alteração dos padrões de precipitação
e da crescente frequência de eventos meteorológicos extremos intensificaram as
pressões sobre os sistemas agrícolas e as cadeias de abastecimento alimentar.
Estas perturbações cruzam-se agora com instabilidade económica, conflitos e
deslocações populacionais, criando uma crise alimentar global multidimensional.
De acordo com o Global Outlook 2026
do Programa Alimentar Mundial (PAM), 318 milhões de pessoas enfrentam fome
aguda, mais do dobro do valor registado em 2019, sendo os choques climáticos
identificados como um dos principais factores deste agravamento.
Impactos Directos na Produtividade Agrícola
1. Queda dos Rendimentos das Culturas
Básicas Devido ao Stress Térmico
As
ondas de calor durante fases críticas de crescimento continuam a reduzir os
rendimentos de milho, trigo e outras culturas essenciais em regiões como o Sul
da Ásia, o Mediterrâneo e o Midwest dos Estados Unidos. O IPCC confirma que o aquecimento observado afectou
negativamente os rendimentos em muitas regiões de latitudes mais baixas, com o
stress térmico a provocar esterilidade durante a floração e a reduzir a
formação de grão.
2. Intensificação das Secas e Variabilidade
da Precipitação
A
imprevisibilidade dos padrões de chuva está a agravar as condições de seca em
regiões sensíveis ao clima, como o Corno de África. Estas alterações
comprometem os sistemas agrícolas de subsistência e o pastoreio, que dependem
de estações chuvosas fiáveis. O IPCC
assinala que as zonas áridas de África e as regiões montanhosas da Ásia e da
América do Sul enfrentam insegurança alimentar induzida pelo clima.
3. Inundações e Perda de Solo Fértil Devido
a Chuvas Extremas
Por outro lado, eventos de precipitação intensificada especialmente durante as monções continuam a destruir culturas em crescimento e a erodir solos férteis. Campos danificados por cheias no Sudeste Asiático e em partes da América do Sul ilustram como os extremos hidrológicos induzidos pelo clima comprometem a estabilidade agrícola.
4. Expansão de Pragas e Doenças das
Culturas
Invernos mais amenos permitem que pragas como a lagarta-do-cartucho (Fall Armyworm) sobrevivam e se expandam para novas regiões. Isto aumenta a dependência de pesticidas, eleva os custos de produção e reduz os rendimentos. Estas mudanças biológicas estão alinhadas com conclusões científicas mais amplas que mostram que o clima está a alterar a distribuição de pragas e a aumentar a vulnerabilidade das culturas.
5. Aquecimento e Acidificação dos Oceanos a
Ameaçar os Sistemas Alimentares Marinhos
Os
ecossistemas marinhos continuam a degradar-se à medida que os oceanos aquecem e
se acidificam. O declínio dos
recifes de coral essenciais como viveiros de peixes reduz os stocks pesqueiros
fundamentais para comunidades costeiras, especialmente nas Ilhas do Pacífico.
Esta tendência agrava a insegurança alimentar em regiões pressionadas por
stress agrícola induzido pelo clima.
Perturbações nas Cadeias de Abastecimento e
nos Meios de Subsistência
6. Eventos Climáticos Extremos a Danificar
Redes de Distribuição Alimentar
Tempestades, furacões e cheias prolongadas
perturbam cada vez mais as infra-estruturas de transporte e armazenamento. Estes
eventos provocam escassez localizada e picos de preços, como observado
anteriormente com o impacto do furacão Ian na cadeia de abastecimento de
produtos frescos da Florida. O PAM
sublinha que os choques climáticos destroem vidas, colheitas e meios de
subsistência, comprometendo directamente o acesso aos alimentos.
7. Escassez de Água Devido ao Degelo de
Glaciares e à Redução do Manto de Neve
O recuo dos glaciares e a diminuição da neve acumulada continuam a ameaçar a agricultura dependente de irrigação em regiões como o Norte da Índia, a Ásia Central e o Oeste dos Estados Unidos. A competição entre usos agrícolas e urbanos da água está a intensificar-se, impondo decisões difíceis sobre a sua gestão.
8. Degradação dos Solos e Desertificação
Temperaturas
mais elevadas aceleram a evaporação e a degradação dos solos, expandindo a
desertificação em regiões semiáridas. Agricultores em áreas afectadas estão a abandonar terras, contribuindo para
deslocações rurais que é uma das vulnerabilidades destacadas pelo PAM, que
observa que populações deslocadas enfrentam níveis mais elevados de insegurança
alimentar.
9. Diminuição da Qualidade Nutricional das
Culturas Básicas
Níveis
elevados de CO₂ atmosférico reduzem a densidade de micronutrientes em culturas
essenciais. O IPCC relata que o
trigo cultivado sob concentrações elevadas de CO₂ contém 5,9-12,7% menos
proteína, além de reduções significativas em zinco e ferro o que representando
riscos de saúde pública a longo prazo, mesmo onde a ingestão calórica permanece
suficiente.
10. Maior Volatilidade dos Preços
Alimentares Globais
Choques
de produção induzidos pelo clima, combinados com conflitos e pressões
económicas, estão a aumentar a volatilidade dos preços alimentares globais. O
PAM alerta que os preços permanecem em níveis de crise, sendo os choques
climáticos um dos principais motores desta instabilidade. Os agregados familiares de baixos rendimentos que
gastam a maior parte do seu orçamento em alimentação são os mais afectados.
Conclusão
A 31 de Janeiro de 2026, as alterações
climáticas não são uma ameaça distante ou abstracta mas uma força presente e
acelerada que está a remodelar os sistemas alimentares globais. Desde a
queda dos rendimentos agrícolas e a degradação dos ecossistemas marinhos até às
perturbações nas cadeias de abastecimento e ao aumento dos preços alimentares,
os impactos são multidimensionais e profundamente interligados. Enfrentar estes desafios exige acção global
coordenada como investimento em agricultura resiliente ao clima, melhor gestão
da água, sistemas de protecção social mais robustos e esforços contínuos para
reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Sem intervenção decisiva, o
número de pessoas em fome aguda de 318 milhões continuará a aumentar.
Bibliografia
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Climate Change (IPCC). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribuição do Grupo de Trabalho II para o Sexto Relatório de
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Research Institute (IFPRI). Global Food Policy Report 2025: Climate Resilience. Washington, DC: IFPRI, 2025.
Referências:
https://www.frontiersin.org/journals/communication/articles/10.3389/fcomm.2026.1759296/full
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10779241/

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