Em Janeiro de 2026, a governação climática global
enfrenta um ponto de viragem decisivo. O agravamento dos fenómenos
meteorológicos extremos, o progresso desigual das metas climáticas nacionais e
o crescente peso financeiro das perdas associadas ao clima empurraram a
comunidade internacional para uma nova fase definida não pela negociação, mas
pela implementação e pela aplicação efectiva.
Com
a conclusão do primeiro Balanço Global e com várias grandes economias a reverem
as suas estratégias climáticas, o mundo necessita agora de estruturas de
governação capazes de produzir resultados mensuráveis, equitativos e alinhados
com a ciência. As dez
recomendações de política seguintes reflectem as avaliações científicas mais
recentes, a evolução geopolítica e os compromissos financeiros em vigor no
início de 2026, delineando um caminho para uma acção climática global credível.
1. Reforçar e Aplicar os
Compromissos Climáticos Nacionais
Todos os grandes emissores devem actualizar as suas
Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) em 2026, alinhando-as com uma
trajectória de emissões compatível com 1,5°C.
Isto exige:
·
Roteiros nacionais de descarbonização
juridicamente vinculativos
·
Marcos intermédios para 2028 e 2030
·
Divulgação obrigatória do progresso de
implementação
A natureza voluntária dos actuais mecanismos de reporte
revelou-se insuficiente. É essencial uma transição para
obrigações nacionais executórias.
2. Estabelecer um Mecanismo Global
Independente de Responsabilização
Até
2026, a UNFCCC deve operacionalizar um organismo independente de cumprimento,
com mandato para:
·
Monitorizar o progresso nacional com
métricas padronizadas
·
Publicar relatórios anuais de desempenho
·
Identificar lacunas entre compromissos e
emissões reais
Este mecanismo reforçaria a transparência e reduziria a
protecção política que actualmente encobre o incumprimento.
3. Tornar Operacional e Ampliar o
Fundo de Perdas e Danos
Após as rondas iniciais de capitalização em 2024-2025, o
Fundo de Perdas e Danos deve agora:
·
Garantir contribuições previsíveis e
plurianuais
·
Alargar a base de doadores para incluir
economias emergentes com elevadas emissões per capita
·
Priorizar mecanismos de desembolso
rápido para países vulneráveis
A escala das perdas climáticas em 2025 demonstrou que o
financiamento ad hoc não é viável.
4. Ultrapassar o Compromisso dos
100 Mil Milhões de Dólares em Financiamento Climático
Os
países desenvolvidos devem não só cumprir, mas ultrapassar a meta anual de 100
mil milhões de dólares, há muito adiada.
·
As
prioridades actualizadas para 2026 incluem:
·
Pelo menos 50% do financiamento
destinado à adaptação
·
Financiamento
dedicado à protecção costeira, segurança hídrica e agricultura resiliente
·
Acesso simplificado para os Pequenos
Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS) e países menos desenvolvidos
O
financiamento para adaptação continua gravemente insuficiente, apesar do
agravamento dos impactos climáticos.
5. Tornar Obrigatórios Testes de
Stress Climático para Instituições Financeiras
Os reguladores financeiros globais especialmente o
Conselho de Estabilidade Financeira e os bancos centrais devem exigir:
·
Testes anuais de stress relacionados com
riscos climáticos
·
Integração dos riscos físicos e de
transição nos requisitos de capital
·
Divulgação obrigatória da exposição
financeira ao risco climático
Isto
garante que o risco climático é devidamente incorporado nos mercados globais,
reduzindo vulnerabilidades sistémicas.
6.
Adotar Tratados de Descarbonização Sectorial
Os sectores de maior intensidade carbónica exigem
governação específica.
Em 2026, os acordos prioritários devem incluir:
·
Um
acordo global vinculativo para a eliminação progressiva do carvão em 2035 para
economias desenvolvidas
·
Calendários claros e executórios para
economias emergentes
·
Normas internacionais para aço verde,
cimento e transporte marítimo
·
Protocolos coordenados de redução de
metano na agricultura e energia
Os tratados sectoriais oferecem precisão onde os
compromissos nacionais abrangentes são insuficientes.
7. Acelerar a Transferência de
Tecnologia e Reduzir Barreiras de Propriedade Intelectual
Para
garantir uma descarbonização global equitativa, governos e instituições
multilaterais devem:
·
Expandir mecanismos de partilha de
patentes para tecnologias verdes críticas
·
Apoiar licenciamento de acesso aberto
para armazenamento avançado de energia, hidrogénio verde e combustíveis
sustentáveis para aviação
·
Financiar centros regionais de
tecnologia em África, Sul da Ásia e América Latina
Sem
acesso equitativo, o Sul Global não conseguirá implementar tecnologias de
mitigação à escala necessária.
8. Integrar a Governação Climática
e da Biodiversidade
A
relação entre clima e biodiversidade é agora central para a política global.
Em 2026, os governos devem:
·
Alinhar
os planos climáticos nacionais com o Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal
·
Priorizar
soluções baseadas na natureza, como restauração de mangais, protecção de
turfeiras e agricultura regenerativa
·
Criar mecanismos conjuntos de reporte
para sequestro de carbono e resultados de biodiversidade
Ecossistemas
saudáveis são indispensáveis tanto para a mitigação como para a adaptação.
9. Integrar o Princípio da
Transição Justa em Todos os Acordos Climáticos
Uma
transição climática credível deve proteger trabalhadores e comunidades.
Isto
requer:
·
Janelas de financiamento dedicadas à
Transição Justa
·
Programas de requalificação para regiões
dependentes de combustíveis fósseis
·
Medidas
de protecção social para os agregados familiares afectados
Integrar estes princípios nos acordos internacionais
evita que a acção climática aprofunde desigualdades sociais.
10. Criar um Índice Global de
Resiliência até 2026
Deve
ser lançado um Índice Global de Resiliência padronizado para:
·
Avaliar a vulnerabilidade nacional a
riscos climáticos
·
Orientar o financiamento internacional
para adaptação
·
Apoiar
sistemas de alerta precoce e planeamento de infra-estruturas resilientes
Regiões como o Corno de África, o Caribe e o Sudeste
Asiático beneficiariam de assistência técnica direccionada com base neste
índice.
Conclusão
A 30 de Janeiro de 2026, o mundo encontra-se num momento
em que a governação climática deve evoluir de compromissos aspiracionais para acções
executórias, equitativas e alinhadas com a ciência. Estas dez recomendações
abordam as fragilidades estruturais que têm limitado o progresso como falta de
responsabilização, financiamento inadequado, transformação sectorial lenta e
fragmentação política.
Ao reforçar as NDCs, reformar o financiamento climático,
acelerar a transferência tecnológica, integrar a protecção da biodiversidade e
garantir uma transição justa, a comunidade internacional pode avançar de forma
decisiva rumo à estabilidade climática e à resiliência. A janela de
oportunidade permanece aberta mas apenas se 2026 se tornar o ano da
implementação, e não do adiamento.
Bibliografia
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Report. Intergovernmental Panel on Climate Change, 2023.
- UNFCCC. Global Stocktake 2023 - Summary Report.
United Nations Framework Convention on Climate Change, 2023.
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- OECD. Climate Finance Provided and Mobilised by
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- World Bank. Climate and Development Report Series.
World Bank Group, 2024-2025.
- Financial Stability Board. Climate‑Related
Financial Risks: Progress Report 2025. FSB, 2025.
- IUCN. Nature‑Based Solutions for Climate and
Biodiversity. International Union for Conservation of Nature, 2024.
- UNDP. Just Transition Policy Frameworks: Global
Review 2025. United Nations Development Programme, 2025.
- IEA. Global Energy Review 2025.
International Energy Agency, 2025.
- IPBES. Global Assessment on Biodiversity and Ecosystem Services – Update 2025. IPBES, 2025.

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