Thursday, 25 December 2025

Dez Abordagens Distintas das Políticas de Saúde Pública (Visão que inclui a União Europeia, Portugal e Macau)

 


A política de saúde pública engloba o conjunto de decisões, regulamentos e acções coordenadas destinadas a proteger e promover a saúde das populações. Até ao final de 2025, este campo tornou‑se ainda mais complexo devido aos efeitos prolongados da pandemia da COVID‑19, ao agravamento das emergências climáticas, ao envelhecimento populacional, à digitalização acelerada dos sistemas de saúde e à crescente atenção às desigualdades estruturais. A compreensão das diferentes abordagens políticas é essencial para avaliar a eficácia, a ética e a sustentabilidade das intervenções de saúde. Entre as várias estratégias existentes, destacam‑se dez abordagens distintas que, embora frequentemente utilizadas em conjunto, representam filosofias e mecanismos de intervenção diferentes.

A primeira é o modelo biomédico e a vigilância epidemiológica, centrado na identificação, controlo e tratamento de doenças. Este modelo continua a ser fundamental na União Europeia, que reforçou o ECDC e expandiu a vigilância genómica; em Portugal, que consolidou o SINAVE e ampliou rastreios; e em Macau, que manteve um sistema de vigilância robusto e tecnologicamente avançado. Embora eficaz e mensurável, esta abordagem tende a ignorar factores sociais e ambientais.

A segunda abordagem é a promoção da saúde e educação, que procura capacitar indivíduos e comunidades para adoptarem comportamentos saudáveis. A UE tem investido em literacia digital e campanhas anti‑tabaco; Portugal reforçou programas de proximidade e campanhas sobre alimentação mediterrânica; e Macau desenvolveu campanhas multilingues sobre estilos de vida saudáveis. Esta abordagem promove autonomia, mas pode responsabilizar excessivamente o indivíduo quando persistem barreiras estruturais.

A terceira abordagem é a saúde ambiental e a regulamentação de segurança, que actua sobre factores como qualidade do ar e da água, habitação e poluição. A UE implementou metas climáticas mais rigorosas; Portugal investiu em energias renováveis e combate à poluição urbana; e Macau reforçou normas ambientais, especialmente em zonas turísticas. É uma abordagem eficaz, mas enfrenta resistência económica e política.

A quarta abordagem, centrada nos determinantes sociais da saúde, reconhece que condições socioeconómicas moldam profundamente os resultados em saúde. A UE integrou estes determinantes nas políticas sociais; Portugal avançou com programas de habitação acessível e combate à pobreza energética; e Macau reforçou apoios sociais e programas para trabalhadores migrantes. Esta abordagem promove mudanças profundas, mas exige coordenação intersectorial e resultados a longo prazo.

A quinta abordagem utiliza instrumentos legislativos e fiscais para moldar comportamentos, como impostos sobre bebidas açucaradas, leis de segurança rodoviária ou restrições ao tabaco. A UE tem regulado alimentos ultra processados; Portugal reforçou impostos e restrições publicitárias; e Macau endureceu leis anti‑tabaco. Estas medidas têm impacto imediato, mas podem gerar resistência pública.

A sexta abordagem foca‑se no acesso universal e na reforma dos sistemas de saúde. A UE expandiu a saúde digital e a interoperabilidade; Portugal reforçou o SNS e a telemedicina; e Macau investiu fortemente em tecnologia médica e integração de serviços. Esta abordagem reduz barreiras financeiras, mas exige grande investimento e consenso político.

A sétima abordagem trata a prevenção de lesões e violência como questões de saúde pública. A UE tem planos de segurança rodoviária e combate ao tráfico humano; Portugal reforçou programas de prevenção de acidentes e apoio a vítimas de violência; e Macau desenvolveu campanhas de segurança no trânsito e mediação comunitária. É eficaz quando baseada em dados, mas sofre com financiamento irregular.

A oitava abordagem é a preparação e resposta a emergências, essencial para lidar com desastres naturais, pandemias e crises inesperadas. A UE criou a HERA; Portugal reforçou a Protecção Civil e planos climáticos; e Macau manteve reservas estratégicas e protocolos de resposta rápida. A dificuldade reside em manter financiamento e prioridade em períodos de estabilidade.

A nona abordagem centra‑se na equidade em saúde e intervenções dirigidas a grupos vulneráveis. A UE desenvolveu programas para minorias e migrantes; Portugal reforçou cuidados primários em zonas carenciadas; e Macau apoiou trabalhadores não‑residentes e idosos com baixos rendimentos. Esta abordagem reduz desigualdades, mas pode gerar percepções de distribuição desigual de recursos.

A décima abordagem vê o desenvolvimento económico como estratégia de saúde, reconhecendo que emprego, infra-estruturas e mobilidade influenciam directamente o bem‑estar. A UE investiu no Pacto Ecológico e mobilidade sustentável; Portugal expandiu o transporte público e programas de coesão territorial; e Macau avançou com a diversificação económica e melhorias na mobilidade urbana. Embora poderosa, a ligação entre políticas económicas e resultados de saúde pode ser difícil de medir a curto prazo.

Estas dez abordagens raramente são aplicadas isoladamente. Políticas eficazes combinam várias estratégias, como se observa no combate à obesidade, que exige rastreios biomédicos, educação alimentar, impostos sobre bebidas açucaradas e melhoria do acesso a alimentos saudáveis. As diferenças entre abordagens residem sobretudo no nível de intervenção individual, contextual ou estrutural. A viabilidade política também varia, sendo mais fácil implementar medidas rápidas do que reformas profundas.

Em síntese, a política de saúde pública em 2025 exige visão de longo prazo, coordenação intersectorial e capacidade de adaptação. As dez abordagens apresentadas oferecem lentes complementares para enfrentar desafios complexos. Um sistema de saúde robusto combina várias estratégias, reconhecendo onde convergem, onde divergem e como podem ser integradas para construir sociedades mais saudáveis e equitativas.

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Lições de 2025 para a Década


PUBLICADO NO HOJEMACAU DIAS 11 e 18.12.2025

Lições de 2025 para a década (HOJEMACAU 11.12.2025)

Lições de 2025 para a Década (HOJEMACAU 18.12.2025 2 PARTE)

“In a year of converging crises and recalibrated ambitions, 2025 taught the world that resilience is not merely endurance, but the capacity to adapt, reimagine, and act with foresight across economic, political, environmental, and technological frontiers.”

 Margaret Atwood

 

O ano de 2025 ficará inscrito na história contemporânea como um período de intensas transformações, marcado por acontecimentos que atravessaram múltiplas dimensões da vida internacional e que exigiram dos Estados, das instituições e das sociedades uma capacidade de adaptação sem precedentes. No plano económico, verificou-se uma desaceleração global que reflectiu os efeitos acumulados de políticas monetárias restritivas, tensões comerciais e instabilidade geopolítica. O crescimento mundial situou-se em torno de valores modestos, insuficientes para responder às necessidades de inclusão social e de redução das desigualdades. A transição do ciclo de subida de taxas de juro para cortes graduais trouxe algum alívio às condições financeiras, mas revelou também fragilidades estruturais, com mercados emergentes a enfrentar restrições fiscais e cambiais que limitaram a sua margem de manobra. A América Latina registou uma expansão insuficiente para gerar emprego sustentável, enquanto a África continuou a lutar pela diversificação das suas economias, excessivamente dependentes de commodities. A Ásia manteve dinamismo industrial e tecnológico, mas a China enfrentou o desafio de estimular o consumo interno e corrigir desequilíbrios estruturais que se tornaram mais evidentes.

No plano político, o regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em Janeiro constituiu um dos acontecimentos mais marcantes do ano. A sua agenda voltou a ser dominada pelo lema “America First”, com medidas proteccionistas, expulsões em massa de imigrantes irregulares e o desmantelamento de sectores do governo federal. Estas acções geraram contestação judicial e acentuaram a polarização política interna, com a utilização da Guarda Nacional em cidades governadas por democratas e ataques aos meios de comunicação a reforçarem a percepção de erosão institucional. No plano internacional, Trump intensificou a actividade diplomática, com resultados variáveis, mas conseguiu protagonizar um papel central na trégua precária alcançada em Gaza, após dois anos de guerra entre Israel e o Hamas. Este cessar-fogo permitiu a libertação de reféns e prisioneiros, bem como o aumento da ajuda humanitária, embora insuficiente segundo a ONU, e deixou em aberto a questão delicada do desarmamento do Hamas.

A instabilidade no Médio Oriente foi agravada por ataques israelitas a instalações nucleares iranianas, que desencadearam uma guerra de doze dias entre os dois países, com bombardeamentos americanos no Irão. Em Setembro, Israel realizou operações inéditas contra altos dirigentes do Hamas em Doha, no Catar, ampliando a tensão regional. Paralelamente, os Estados Unidos intensificaram acções militares nas Caraíbas e no Pacífico, justificadas como combate ao narcotráfico, mas criticadas pela ONU como execuções extrajudiciais. Estas operações, que resultaram em dezenas de mortos, evidenciaram a disposição americana em projectar poder militar para além do Médio Oriente, reforçando a percepção de unilateralismo e contestação internacional.

No plano geopolítico, a invasão da Ucrânia pela Rússia continuou a ter repercussões, com sanções e tensões energéticas a afectar a Europa. O conflito prolongado manteve a instabilidade na região e reforçou a necessidade de diversificação energética, acelerando a transição para fontes renováveis. No Sudão e em outras regiões africanas, guerras internas agravaram crises humanitárias, com milhões de deslocados e sistemas estatais em colapso. A cooperação internacional revelou fragilidades, com dificuldades em revitalizar mecanismos multilaterais e em garantir previsibilidade nos fluxos comerciais.

No plano ambiental, os impactos das mudanças climáticas tornaram-se cada vez mais evidentes. Ondas de calor devastaram a Ásia, inundações atingiram o Brasil, a Indonésia e partes da Europa, incêndios florestais devastaram o Canadá e furacões como o Helene e Milton provocaram destruição nos Estados Unidos. Estes fenómenos expuseram a urgência da transição energética e da redução da dependência de combustíveis fósseis. A descarbonização da economia foi reconhecida não apenas como exigência ambiental, mas como oportunidade económica, com investimentos em energias limpas, mobilidade sustentável e eficiência energética a gerar empregos e a posicionar países como líderes na nova economia verde. O Fórum Económico Mundial identificou como principais riscos para 2025 os conflitos armados, os eventos climáticos extremos e os confrontos geoeconómicos. A conjugação destes factores revelou a necessidade de acção coordenada e estratégica. A regulação das tecnologias emergentes tornou-se tema central, com debates sobre protecção de dados, inovação responsável e riscos sistémicos. A ausência de normas globais claras aumentou as assimetrias e a insegurança digital, sobretudo em áreas como criptomoedas, inteligência artificial e plataformas digitais.

As comparações regionais revelam disparidades significativas. Nos Estados Unidos, o crescimento rondou os 2,1%, reflectindo cortes graduais nas taxas de juro e políticas proteccionistas. A inflação desceu para valores próximos de 3%, mas o consumo interno manteve-se frágil. Na União Europeia, o crescimento médio foi de 1,3%, com a Alemanha a investir cerca de 40 mil milhões de euros em programas de transição energética e a França a reforçar a aposta na energia nuclear. Portugal registou um crescimento de 2,1%, sustentado pelo turismo, que recuperou para níveis recorde, com mais de 30 milhões de visitantes e receitas superiores a 62 mil milhões de euros, representando cerca de 21,5% do PIB, embora tenha enfrentado inflação persistente nos bens alimentares. Na América Latina, o Brasil cresceu 2,4%, mas enfrentou inundações severas que afectaram mais de 3 milhões de pessoas e provocaram perdas económicas estimadas em 15 mil milhões de dólares, apesar de a inflação se ter mantido em torno de 5%. A Argentina registou um crescimento de 5,5%, com inflação próxima de 30%, muito abaixo dos níveis superiores a 100% dos anos anteriores, reflectindo políticas de estabilização fiscal e monetária.

Em África, o crescimento médio foi de 3,5%, mas desigual, com a Nigéria e Angola vulneráveis à volatilidade dos preços do petróleo e países do Sahel a viverem crises humanitárias agravadas por desertificação e conflitos armados. Na Ásia, a China cresceu cerca de 5%, abaixo das metas oficiais, reflectindo a necessidade de estimular o consumo interno. A Índia registou um crescimento robusto entre 7,5% e 8%, impulsionado por investimentos em digitalização, energias renováveis e reformas fiscais, mantendo-se como a economia de maior expansão global. Assim, o panorama económico de 2025 confirma fortes disparidades regionais. As economias dos Estados Unidos e União Europeia cresceram modestamente, enquanto a Índia e a China lideraram a expansão global. A Argentina destacou-se pela estabilização após anos de hiperinflação, e o Brasil enfrentou choques climáticos severos. A África manteve o crescimento médio positivo, mas marcado por desigualdades estruturais e crises humanitárias.

Os impactos sociais foram profundos. Nos Estados Unidos, as políticas de expulsão de imigrantes afectaram centenas de milhares de famílias. Na Europa, o aumento do custo da energia provocou manifestações em países como França e Itália. No Brasil, as inundações destruíram comunidades inteiras, obrigando à realocação de mais de 500 mil pessoas. Em África, a escassez de água intensificou migrações internas. A crise de consumo interno em Macau reflectiu a diminuição do poder de compra dos turistas chineses e a retracção da procura local, afectando directamente sectores como a restauração e o comércio.

As políticas ambientais ganharam destaque. A União Europeia reforçou o Pacto Ecológico Europeu, investindo mais de 100 mil milhões de euros em energias renováveis e mobilidade sustentável. O Canadá lançou programas de reflorestação que abrangeram 1 milhão de hectares. O Brasil procurou implementar políticas de gestão de inundações com investimentos de 10 mil milhões de dólares. A China investiu em tecnologias de armazenamento de energia, com projectos avaliados em 50 mil milhões de dólares. A Índia ampliou programas solares em zonas rurais, garantindo electricidade a milhões de pessoas.

No campo tecnológico, a inteligência artificial e a digitalização transformaram economias e sociedades. Entre 2026 e 2030, mais de 50% das tarefas administrativas poderão ser automatizadas, criando novos desafios de emprego e exigindo políticas de requalificação. A utilização de criptomoedas e de tecnologias financeiras digitais poderá atingir mais de 500 milhões de utilizadores activos. A regulação global da inteligência artificial e das plataformas digitais será fundamental para evitar abusos de mercado e riscos sistémicos. Países como o Japão e a Coreia do Sul avançarão com legislações rigorosas, enquanto a Europa procurará liderar a criação de normas globais.

No sector da educação, a digitalização e a inclusão serão prioridades. Até 2030, mais de 70% das escolas em países desenvolvidos poderão utilizar plataformas digitais para ensino híbrido. A inteligência artificial será utilizada para personalizar aprendizagem, adaptando conteúdos às necessidades individuais dos estudantes. Contudo, desigualdades persistirão em África e em partes da América Latina. A educação técnica e a formação contínua serão essenciais para preparar trabalhadores para novas exigências do mercado.

No sector da segurança, o mundo enfrentará desafios complexos. O terrorismo poderá assumir novas formas, com utilização de tecnologias digitais e de inteligência artificial. A cibersegurança tornar-se-á prioridade, com ataques digitais a sistemas críticos a representar riscos significativos. Estima-se que até 2030 os custos globais de ciberataques possam ultrapassar 10 mil milhões de dólares anuais. No plano militar, tensões geopolíticas entre os Estados Unidos e a China poderão intensificar-se. O Médio Oriente continuará a ser foco de instabilidade. Entre 2026 e 2030, os cenários sociais e culturais assumirão papel determinante na configuração do futuro global. A migração internacional continuará a ser um dos fenómenos mais marcantes, impulsionada por conflitos armados, desigualdades económicas e alterações climáticas.

Estima-se que centenas de milhões de pessoas possam estar em situação de mobilidade internacional ou interna, seja por procura de melhores condições de vida, seja por necessidade de sobrevivência. A Europa enfrentará pressões migratórias vindas de África e do Médio Oriente, com centenas de milhares de pessoas a procurar refúgio em países como Itália, Grécia, Espanha e Alemanha. Este fluxo exigirá políticas de integração mais robustas, mas também poderá gerar tensões sociais e políticas, alimentando discursos populistas e nacionalistas.

Nos Estados Unidos, a imigração continuará a ser tema central, com políticas restritivas a provocar tensões sociais e protestos, mas também com a necessidade de mão-de-obra em sectores como agricultura, construção e serviços. Na América Latina, migrações internas intensificar-se-ão devido a fenómenos climáticos extremos, como inundações e secas, obrigando milhões de pessoas a deslocar-se das zonas rurais para as cidades. Em África, a desertificação e os conflitos armados no Sahel poderão deslocar mais de 20 milhões de pessoas, criando crises humanitárias de grande escala.

A urbanização será outro fenómeno central. Até 2030, mais de 65% da população mundial viverá em áreas urbanas, com megacidades a crescerem de forma acelerada. Cidades como Lagos, Kinshasa, Mumbai, São Paulo e Jacarta poderão ultrapassar os 30 milhões de habitantes, enfrentando desafios de infra-estrutura, habitação, transporte e saneamento. A urbanização acelerada trará oportunidades de dinamismo económico e cultural, mas também riscos de desigualdade e exclusão social. As cidades terão de investir em soluções sustentáveis, como transportes públicos eficientes, habitação acessível e gestão de resíduos. A digitalização das cidades, com recurso a tecnologias inteligentes, poderá melhorar a qualidade de vida, mas exigirá políticas de inclusão para evitar que populações vulneráveis fiquem excluídas.

As transformações demográficas serão igualmente decisivas. O envelhecimento populacional na Europa, Japão e Coreia do Sul exigirá políticas de saúde e de cuidados de longa duração, com impacto nos sistemas de pensões e na sustentabilidade fiscal. Estima-se que, até 2030, mais de 25% da população da Europa tenha mais de 65 anos, criando desafios de produtividade e de financiamento dos sistemas sociais. Em contrapartida, África e partes da Ásia terão populações jovens em crescimento, com milhões de pessoas a entrar no mercado de trabalho. Este fenómeno poderá ser uma oportunidade de dinamismo económico, mas também um risco de instabilidade se não forem criados empregos suficientes. A Índia, por exemplo, terá mais de 1,5 mil milhões de habitantes em 2030, com uma população jovem que poderá impulsionar crescimento, mas que exigirá investimentos massivos em educação e formação. A China enfrentará o desafio de uma população envelhecida, com mais de 400 milhões de pessoas acima dos 60 anos em 2030, o que poderá limitar o dinamismo económico e aumentar pressões sobre sistemas de saúde e pensões.

Os cenários culturais também se transformarão. A globalização digital continuará a difundir valores e práticas culturais, mas também a gerar tensões entre tradições locais e influências externas. A música, o cinema e a literatura circularão de forma cada vez mais intensa, criando uma cultura global híbrida. Contudo, movimentos de afirmação identitária e de valorização de culturas locais ganharão força, procurando preservar tradições e resistir à homogeneização cultural. A diversidade cultural será simultaneamente uma riqueza e um desafio, exigindo políticas de inclusão e de respeito pela diferença.

As migrações, a urbanização e as transformações demográficas interagirão com fenómenos ambientais e tecnológicos. As cidades terão de se adaptar a fenómenos climáticos extremos, como inundações e ondas de calor, que afectarão milhões de pessoas. A migração climática tornar-se-á realidade, com populações inteiras a deslocar-se devido à subida do nível do mar e à desertificação. A urbanização acelerada exigirá soluções tecnológicas, como cidades inteligentes e infra-estruturas sustentáveis, mas também políticas sociais para garantir inclusão. As transformações demográficas criarão novos equilíbrios de poder, com África e Ásia a ganhar peso demográfico e económico, enquanto a Europa e Japão enfrentarão desafios de envelhecimento.

Em síntese, o período entre 2025 e 2030 pode ser descrito como uma fase de transição crítica, em que os acontecimentos de 2025 funcionaram como catalisadores de mudanças estruturais que se manifestaram em diferentes dimensões. A economia global entrou num ciclo de recuperação moderada, mas com riscos persistentes. A política internacional foi marcada por polarização e por tensões geopolíticas, com os Estados Unidos e a China a disputar a liderança tecnológica e industrial, e o Médio Oriente a permanecer como foco de instabilidade. O ambiente revelou a urgência da transição energética e da adaptação climática, com fenómenos extremos a afectarem milhões de pessoas. A tecnologia transformou economias e sociedades, criando oportunidades e riscos. A educação e a saúde exigiram políticas inclusivas e inovadoras. A segurança tornou-se prioridade, com ciberataques e terrorismo digital a representar riscos significativos. Os cenários sociais e culturais revelaram a importância da migração, da urbanização e das transformações demográficas.

O futuro dependerá da capacidade de articular interesses nacionais com responsabilidades colectivas, construindo um equilíbrio entre competitividade e solidariedade. Se os países conseguirem investir em inovação responsável, em educação inclusiva e em sustentabilidade energética, será possível construir um futuro mais justo, sustentável e inclusivo. Caso contrário, o risco de estagnação prolongada e de agravamento das desigualdades permanecerá elevado. O período entre 2025 e 2030 ficará, assim, como um momento decisivo, em que a humanidade foi chamada a escolher entre a cooperação e a fragmentação, entre a coragem de avançar e o risco de permanecer prisioneira das suas próprias contradições.

 

Jorge Rodrigues Simão

Friday, 19 December 2025

Dez Tipos Fundamentais de Aquecimento Global (Actualizado até Dezembro de 2025) UE, Portugal e Macau


 

 Introdução

O aquecimento global, frequentemente utilizado como sinónimo de alterações climáticas, refere‑se ao aquecimento de longo prazo do sistema climático da Terra observado desde a era pré‑industrial, impulsionado sobretudo por actividades humanas como a combustão de combustíveis fósseis, a desflorestação e diversos processos industriais. Estas actividades aumentam a concentração atmosférica de gases com efeito de estufa, intensificando a capacidade do planeta para reter calor. Embora o aquecimento global seja muitas vezes apresentado como uma ameaça única e homogénea, é mais correctamente entendido como uma constelação de transformações físicas, químicas e ecológicas interligadas.

Este texto actualizado até Dezembro de 2025 sintetiza dez dimensões essenciais do aquecimento global, integrando as avaliações científicas mais recentes incluindo indicadores climáticos de 2024-2025, como o recorde de calor oceânico e a aceleração da perda de glaciares  e enquadrando estes fenómenos nos contextos políticos e regionais da União Europeia (UE), de Portugal e da RAE de Macau.

Dez Caminhos para a Adesão à União Europeia: Uma Análise das Fases de Acesso - Um Estudo dos Balcãs Ocidentais (Actualizado até Dezembro de 2025)

 


Introdução

A perspectiva de adesão à União Europeia continua a funcionar como um dos mais poderosos incentivos geopolíticos na Europa. Para os Balcãs Ocidentais, uma região marcada pela reconstrução pós‑conflito, pela transição institucional e por persistentes desigualdades socioeconómicas, o processo de adesão representa não apenas um objectivo estratégico, mas também um quadro transformador para a estabilidade, prosperidade e consolidação democrática. A política de alargamento não é um evento isolado, mas um percurso exigente, composto por múltiplas fases, regido por condicionalidade rigorosa, monitorização contínua e escrutínio político.

Tal como reafirmado na Declaração da Cimeira EU-Balcãs Ocidentais de Bruxelas, de 17 de Dezembro de 2025, a União mantém o seu “compromisso pleno e inequívoco” com a perspectiva europeia da região, sublinhando que o alargamento constitui um “investimento geoestratégico na paz, segurança, estabilidade e prosperidade”. Contudo, o progresso permanece desigual, condicionado por reformas internas, disputas bilaterais e pressões geopolíticas.

Esta análise actualizada apresenta os dez caminhos essenciais do processo de adesão e avalia como cada país dos Balcãs Ocidentais os percorre até Dezembro de 2025.

Dez Categorias e os Seus Impactos na Avaliação de Políticas Ambientais (UE, Portugal e Macau Dezembro 2025)

 


Introdução

A avaliação de políticas ambientais é um processo multidimensional e cada vez mais orientado por dados, essencial para determinar se as acções regulatórias alcançam os resultados ecológicos pretendidos, mantendo simultaneamente a equidade social, a viabilidade económica e a sustentabilidade institucional. Na União Europeia (UE), este processo ganhou especial relevância com o Pacto Ecológico Europeu, o pacote Fit for 55, a Lei Europeia do Clima e as novas regras de divulgação de riscos climáticos. Portugal, enquanto Estado‑Membro, integra estes quadros através de políticas nacionais de descarbonização, conservação marinha e economia circular. Macau, embora não pertença à UE, enfrenta desafios específicos como densidade urbana elevada, pressão turística e vulnerabilidade climática, exigindo adaptações próprias no âmbito da sua política ambiental e dos compromissos assumidos no contexto da Região Administrativa Especial.

Ao analisar sistematicamente dez categorias centrais, decisores públicos e analistas conseguem avaliar não apenas os resultados ambientais directos de uma política, mas também as suas implicações económicas, sociais, políticas e de longo prazo. Até Dezembro de 2025, esta abordagem tornou‑se indispensável para garantir coerência entre metas globais, europeias, nacionais e locais.

Categorias Centrais de Avaliação

1. Eficácia Ecológica

A eficácia ecológica avalia se a política produziu melhorias ambientais mensuráveis. Na UE, esta avaliação é suportada por sistemas como o Copernicus e o EEA Air Quality Index. Portugal utiliza estes dados para monitorizar a qualidade do ar, conservação marinha e gestão de resíduos. Macau recorre a monitorização atmosférica e costeira para avaliar políticas de redução de emissões, gestão de resíduos e protecção costeira, especialmente face ao aumento da frequência de tufões.

Wednesday, 17 December 2025

O ano em 2025

 


A Nova Ordem Política Internacional

O ano de 2025 iniciou-se com um dos acontecimentos mais marcantes da década que foi o regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. A sua tomada de posse foi acompanhada por uma retórica nacionalista e por medidas imediatas que visaram reforçar a soberania americana. Internamente, o governo endureceu políticas migratórias, promoveu cortes em programas sociais e reforçou a segurança nas fronteiras. Estima-se que mais de 1,2 milhões de imigrantes irregulares tenham sido deportados nos primeiros meses do mandato, provocando protestos em cidades como Nova Iorque e Los Angeles, onde a Guarda Nacional foi mobilizada para conter manifestações. Externamente, Trump reposicionou os Estados Unidos em relação à NATO, exigindo maior contribuição financeira dos aliados europeus, e intensificou a presença militar em zonas de tensão como o Médio Oriente e a América Latina. Esta política “America First” reacendeu debates sobre proteccionismo, comércio internacional e equilíbrio de poder entre grandes blocos, colocando em causa a estabilidade de acordos multilaterais.

Médio Oriente: Entre Tréguas e Escaladas

No Médio Oriente, a guerra entre Israel e o Hamas conheceu um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos e pelo Egipto, alcançado em Sharm el-Sheikh. O acordo permitiu a libertação de cerca de 200 reféns israelitas e mais de 1.000 prisioneiros palestinianos, bem como maior entrada de ajuda humanitária em Gaza. Contudo, a ONU alertou que a ajuda continua insuficiente, com mais de 2 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave. Apesar da trégua, a paz revelou-se frágil. A exigência de desarmamento do Hamas e a postura beligerante de Benjamin Netanyahu mantêm o risco de retoma dos combates. Paralelamente, Israel protagonizou ataques contra instalações nucleares iranianas, desencadeando uma guerra de doze dias que envolveu bombardeamentos americanos no Irão. Estes episódios demonstraram a persistente instabilidade regional e a dificuldade em conter a escalada militar.

América Latina e a Reconfiguração Estratégica

Os Estados Unidos reforçaram a sua presença na América Latina, firmando acordos militares e económicos, como o celebrado com o Paraguai. Os objectivos declarados foram o combate ao narcotráfico e a contenção de influências externas, nomeadamente da China e da Rússia. Contudo, as reacções locais dividiram-se em que alguns governos cooperaram, enquanto outros denunciaram ingerência na soberania nacional. O impacto regional traduziu-se em maior militarização e em debates sobre integração económica e política no Mercosul. Em países como o Brasil, registou-se crescimento económico de 2,9%, impulsionado pela exportação de matérias-primas.

Europa em Busca de Unidade

A União Europeia enfrentou um ano de grandes desafios. A crise energética agravou-se devido às tensões no Médio Oriente e à necessidade de acelerar a transição para energias renováveis. Os fluxos migratórios aumentaram, com refugiados provenientes de zonas de conflito e de regiões afectadas por fenómenos climáticos extremos. Internamente, a ascensão de partidos populistas em países como Itália, França e Hungria colocou em causa a coesão comunitária e a solidariedade entre Estados-membros. Em 2025, mais de 450 mil pedidos de asilo foram registados na União Europeia, número que reacendeu debates sobre políticas de acolhimento e integração.

Economia Global em Transição

A economia mundial registou sinais mistos em 2025. Segundo a ONU, o crescimento global foi de 2,8%, abaixo da média pré-pandemia de 3,2%.

  • Nos Estados Unidos, o crescimento foi de 1,9%, com desaceleração do consumo.
  • Na Europa, o PIB cresceu apenas 1,3%, reflectindo dificuldades na indústria automóvel e tecnológica.
  • A China registou crescimento de 4,8%, mas enfrentou fragilidade no sector imobiliário.
  • A Índia liderou o crescimento mundial com 6,6%, consolidando-se como potência emergente.
  • Na América Latina, o crescimento médio foi de 2,3%, com destaque para o Brasil e México.

A inflação global caiu de 4% em 2024 para 3,4% em 2025, proporcionando algum alívio às famílias. Contudo, os preços dos alimentos mantiveram-se elevados, com aumentos de mais de 5% em metade dos países em desenvolvimento.

Tecnologia e Inovação

A inteligência artificial consolidou-se como ferramenta central em múltiplos sectores. Na saúde, algoritmos foram utilizados para diagnóstico precoce e gestão hospitalar, reduzindo em 15% os tempos de espera em hospitais americanos. Na educação, plataformas digitais adaptativas personalizaram conteúdos para cada estudante, com impacto positivo em países como a Finlândia, onde os resultados escolares melhoraram em 12%. Na indústria, a automação avançada aumentou a produtividade, mas gerou debates sobre o futuro do emprego. Estima-se que mais de 20 milhões de postos de trabalho tenham sido substituídos por sistemas automatizados em 2025. No campo energético, registaram-se avanços significativos como expansão da energia solar e eólica, desenvolvimento de baterias de longa duração e projectos-piloto de hidrogénio verde. No espaço, a NASA e a SpaceX lançaram missões conjuntas para Marte, a China reforçou o programa lunar e a Europa investiu em satélites para monitorização climática.

Ambiente e Alterações Climáticas

Ondas de calor, tempestades e furacões devastaram várias regiões em 2025. A Europa registou temperaturas recorde, com impactos na saúde pública e na agricultura. A Ásia enfrentou monções intensas, provocando inundações e deslocações populacionais. A América sofreu furacões de grande intensidade, causando prejuízos económicos elevados. Globalmente, registaram-se 393 desastres naturais em 2024-2025, com 16.753 mortes e perdas económicas de 242 mil milhões de dólares. O Furacão Melissa atingiu a Jamaica como Categoria 5, causando mais de 80 mortos e prejuízos de 8,8 mil milhões de dólares. A União Europeia reforçou metas de neutralidade carbónica, impondo restrições a indústrias poluentes. China e Índia comprometeram-se a reduzir emissões, embora enfrentem desafios internos.

COP30 em Belém: A Amazónia no Centro da Agenda Climática

A Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP30), realizada em Belém do Pará, constituiu um dos momentos mais simbólicos de 2025. Pela primeira vez, uma cimeira climática desta dimensão decorreu no coração da Amazónia, região que concentra a maior floresta tropical do planeta e desempenha papel crucial na regulação climática global. A escolha de Belém teve um valor político e simbólico inegável ao colocar a Amazónia no centro das negociações internacionais. O Brasil assumiu protagonismo como anfitrião, reforçando a sua posição de liderança na agenda ambiental e climática. A presença de mais de 190 delegações nacionais e cerca de 70 mil participantes destacou a importância global da conferência.

Na COP30, os países reafirmaram a necessidade de limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais.

Entre os compromissos assumidos destacaram-se:

·         Financiamento climático: promessa de mobilizar 100 mil milhões de dólares anuais para apoiar países em desenvolvimento na transição energética e adaptação.

·         Protecção da Amazónia: o Brasil anunciou metas de desmatamento zero até 2030, reforçando fiscalização e programas de reflorestação.

·         Energia limpa: expansão de projectos de hidrogénio verde e energias renováveis, com destaque para parcerias entre União Europeia e América Latina.

·         Justiça climática: inclusão de mecanismos de compensação para comunidades indígenas e populações vulneráveis, reconhecendo o papel dos povos tradicionais na preservação ambiental.

Para Belém e para o Brasil, a COP30 representou não apenas um evento internacional, mas também uma oportunidade de mostrar ao mundo a riqueza cultural e ambiental da Amazónia. A cidade recebeu investimentos em infra-estrutura, transporte e hotelaria, consolidando-se como destino de turismo sustentável. No plano social, a conferência deu visibilidade às reivindicações de comunidades indígenas e ribeirinhas, que exigiram maior participação nas decisões sobre o futuro da floresta. A COP30 em Belém ficará marcada como um ponto de viragem na diplomacia climática. Ao trazer a Amazónia para o centro das negociações, o mundo reconheceu que não haverá solução para a crise climática sem a preservação da maior floresta tropical do planeta.

Sociedade e Cultura

2025 foi um ano de mobilização social. Movimentos de defesa dos direitos das mulheres exigiram igualdade salarial e combate à violência de género. A juventude reivindicou maior participação política e medidas contra a crise climática. Avanços legislativos reforçaram direitos da comunidade LGBTQIA+ em vários países. No Brasil, movimentos sociais como o MST e a Marcha Mundial das Mulheres apontaram como prioridades a reforma agrária, a política nacional de cuidados e o combate à violência policial. A Central Única dos Trabalhadores defendeu a ratificação da Convenção 151 da OIT, que assegura liberdade sindical no serviço público. Na cultura, o cinema abordou temas como migração, identidade e crise ambiental. A literatura destacou autores africanos e asiáticos, trazendo novas perspectivas ao panorama global. A música fundiu estilos tradicionais com electrónica, reflectindo a diversidade cultural contemporânea.

Segurança Internacional

O atentado em Sydney, durante o Hanukkah, foi um dos episódios mais trágicos do ano, reacendendo o debate sobre segurança em espaços públicos. As autoridades reforçaram a cooperação internacional em matéria de inteligência e combate ao extremismo. Além do terrorismo, emergiram novas ameaças como ataques cibernéticos a infra-estruturas críticas e receios sobre uso indevido da biotecnologia para fins militares. Em 2025, registaram-se mais de 120 grandes ataques cibernéticos contra hospitais, bancos e sistemas de transporte, expondo vulnerabilidades da sociedade digital.

Argentina: Inflação Moderada e Desafios Sociais

Em 2025, a Argentina conseguiu reduzir a inflação para cerca de 30%, após anos de hiperinflação que tinham ultrapassado os 100%. A estabilização foi alcançada através de acordos com o FMI e medidas de controlo cambial, mas o impacto social manteve-se evidente pois os salários reais caíram em média 8% e o poder de compra das famílias continuou fragilizado. Apesar de um crescimento económico de 5%, os protestos em Buenos Aires e Córdoba revelaram o descontentamento popular, com sindicatos a exigir aumentos salariais e maior protecção social. A Argentina viveu, assim, um ano de transição, entre a esperança de estabilização e a persistência de desigualdades estruturais.

Venezuela: Crise Estrutural Persistente

Na Venezuela, 2025 foi marcado por uma crise estrutural que se prolonga há mais de uma década. A economia contraiu cerca de 2,5%, reflectindo a queda da produção petrolífera e a falta de investimento estrangeiro. A inflação manteve-se elevada, em torno de 85%, corroendo o poder de compra da população. A escassez de bens essenciais, como medicamentos e alimentos, provocou longas filas em Caracas e Maracaibo. Estima-se que mais de 7 milhões de venezuelanos tenham emigrado desde 2015, com fluxos contínuos para a Colômbia, Brasil e Estados Unidos. Politicamente, o governo manteve o controlo através de alianças militares e apoio externo, mas a crise humanitária venezuelana continuou a ser uma das mais graves da América Latina.

Portugal: Crescimento Moderado e Pressões Estruturais

Portugal registou em 2025 um crescimento económico de 2%, ligeiramente acima da média da União Europeia. O turismo manteve-se como motor da economia, com mais de 30 milhões de visitantes, reforçando receitas fiscais e dinamizando o sector hoteleiro. Contudo, o país enfrentou desafios estruturais como os preços da habitação aumentaram 12% em Lisboa e Porto, dificultando o acesso das famílias à compra de casa; a transição energética avançou com novos parques solares no Alentejo, mas os custos da electricidade continuaram elevados; e a demografia envelhecida pressionou o sistema de pensões e saúde. Politicamente, o governo enfrentou críticas pela lentidão na execução de fundos europeus e pela dificuldade em conter a especulação imobiliária. Ainda assim, Portugal manteve estabilidade institucional e reforçou o seu papel como destino de investimento tecnológico, com centros de inovação em Lisboa e Braga.

Macau: Recuperação Turística e Diversificação Económica

Em Macau, 2025 foi um ano de recuperação e redefinição estratégica. O território registou mais de 33 milhões de visitantes, aproximando-se dos níveis pré-pandemia, com forte impacto positivo no sector do jogo e da hotelaria. Contudo, a dependência do turismo e do jogo continuou a ser um desafio. O governo lançou programas de diversificação económica, incentivando áreas como tecnologia financeira, saúde e educação internacional. O PIB cresceu cerca de 5,4%, impulsionado pelo regresso do turismo, enquanto o mercado imobiliário estabilizou após anos de subida. No plano académico, universidades locais reforçaram parcerias internacionais, consolidando Macau como centro de investigação e ensino no espaço lusófono e asiático. Socialmente, o território debateu-se entre a preservação do património histórico e a integração na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, procurando equilibrar identidade cultural e modernização económica.

O Futuro

O balanço de 2025 revela um mundo em transição. A política foi marcada por polarização e redefinição de alianças. A economia apresentou crescimento desigual e desafios da globalização. A tecnologia trouxe avanços extraordinários, acompanhados de dilemas éticos. O ambiente evidenciou a urgência de respostas globais às alterações climáticas. A sociedade mobilizou-se em defesa de direitos e da sustentabilidade. A segurança internacional expôs vulnerabilidades e novas ameaças. Em síntese, 2025 ficará registado como um ano de tensão e transformação, em que o mundo se viu obrigado a confrontar simultaneamente os desafios da geopolítica, da economia, da tecnologia, do ambiente e da cultura.

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