A desigualdade de rendimentos continua a ser um dos
desafios socioeconómicos mais marcantes da década de 2020. Embora as forças de
mercado influenciem fortemente a distribuição de rendimentos, governos de todo
o mundo especialmente no âmbito da OCDE e da União Europeia demonstraram que
políticas fiscais, laborais e sociais bem desenhadas podem reduzir de forma
significativa as disparidades. Estudos recentes mostram que impostos e
transferências diminuem a pobreza relativa em todos os países da OCDE, com
reduções particularmente expressivas em França e na Finlândia, onde a
redistribuição reduz a pobreza entre 27 e 28 pontos percentuais.
Na União Europeia, os níveis de desigualdade regressaram,
em geral, aos padrões pré‑crise, mas a percepção pública permanece crítica pois
quatro em cada cinco cidadãos europeus consideram que a desigualdade é
excessiva. Em resposta, os decisores políticos têm adoptado quadros integrados
que abordam os factores pré‑mercado, intra‑mercado e pós‑mercado, especialmente
num contexto marcado pela transição digital e climática. Em Portugal, o debate
intensificou‑se com a actualização do salário mínimo, a revisão das políticas
de habitação e o reforço das prestações sociais. Em Macau, a discussão centra‑se
na diversificação económica, na valorização das qualificações e na protecção
dos trabalhadores num mercado altamente dependente do turismo e do jogo.
Neste contexto, destacam‑se dez direcções políticas
essenciais para reduzir a desigualdade de rendimentos até 2026.
Reformas
Fiscais e Tributárias Centrais
1.
Reforço da Progressividade do Imposto sobre o Rendimento. A evidência da OCDE confirma que a tributação
progressiva continua a ser um dos instrumentos mais eficazes para reduzir
desigualdades. França e Finlândia demonstram como sistemas robustos de impostos
e transferências estreitam significativamente os fossos de rendimento. Em
Portugal, a actualização dos escalões do IRS e o reforço do mínimo de
existência têm contribuído para aliviar a carga fiscal sobre os rendimentos
mais baixos. Em Macau, embora o sistema fiscal seja leve e pouco progressivo,
discute‑se cada vez mais a necessidade de mecanismos redistributivos
complementares.
2. Reforma da
Tributação de Mais‑Valias e Rendimentos de Capital. A aproximação das taxas
de tributação de mais‑valias às taxas aplicadas ao trabalho reduz o tratamento
preferencial do rendimento derivado da riqueza. Vários Estados‑Membros da UE
têm avançado nesse sentido, procurando maior equidade e alargamento da base
fiscal. Portugal tem revisto a tributação de rendimentos de capitais,
especialmente no contexto de investimentos financeiros e imobiliários.
3.
Implementação de Impostos sobre Grandes Fortunas. Apesar da sensibilidade política, os impostos sobre
património elevado debatidos na UE e aplicados em países como Espanha e Noruega
oferecem um mecanismo para enfrentar a concentração extrema de riqueza. Em
Portugal, o Adicional ao IMI (AIMI) tem sido um instrumento relevante, embora
limitado. Macau, com baixa tributação patrimonial, observa estas experiências
internacionais como referência para debates futuros.
Reforço
do Mercado de Trabalho
4.
Aumento e Indexação dos Salários Mínimos. A Directiva Europeia de 2022 sobre Salários Mínimos
Adequados continua a influenciar os mecanismos de definição salarial nos
Estados‑Membros. Até 2025, vários países indexaram os salários mínimos à
inflação e à produtividade, protegendo os trabalhadores de baixos rendimentos
da erosão salarial. Portugal tem seguido esta tendência, com aumentos anuais
significativos. Em Macau, o salário mínimo geral foi actualizado, mas continua
a ser objecto de debate quanto à sua adequação ao custo de vida.
5.
Reforço da Concorrência e da Aplicação de Leis Anti‑Trust. A análise da OCDE mostra que mercados de trabalho
concentrados reduzem salários. O reforço da aplicação de leis de concorrência especialmente
em sectores digitais e de plataformas ajuda a restaurar o poder negocial dos
trabalhadores. A UE tem sido particularmente activa neste domínio, com
legislação sobre mercados digitais (DMA e DSA).
6.
Expansão dos Direitos de Negociação Coletiva. Países com elevada cobertura de negociação colectiva,
como os nórdicos, apresentam níveis de desigualdade mais baixos. Simplificar
processos de sindicalização e promover a negociação sectorial pode replicar
estes resultados. Portugal mantém uma tradição forte de contratação colectiva,
embora com desafios de cobertura. Em Macau, a ausência de legislação sindical
plena limita o alcance da negociação colectiva, sendo este um tema recorrente
no debate social.
Investimento
em Capital Humano e Oportunidades
7.
Acesso Universal a Educação Pré‑Escolar de Alta Qualidade. A UE e a OCDE destacam a educação pré‑escolar como um
igualizador de longo prazo. O acesso universal melhora o potencial de
rendimentos ao longo da vida e reduz desigualdades intergeracionais. Portugal
tem ampliado a rede pública e gratuita para crianças a partir dos 3 anos. Macau
tem investido na qualidade do ensino pré‑escolar, embora a oferta continue
maioritariamente privada.
8.
Investimento em Competências, Formação Profissional e Empregos da Transição
Verde. O Plano Industrial
do Pacto Ecológico Europeu e os programas de recuperação nacionais priorizam a
requalificação em tecnologias verdes, saúde e sectores digitais. Estes
investimentos ajudam trabalhadores a sair de ocupações de baixos salários e
promovem crescimento inclusivo. Portugal tem reforçado programas de formação
modular e reconversão profissional. Macau tem intensificado esforços para
diversificar a economia e qualificar trabalhadores para sectores emergentes,
como tecnologia, logística e saúde.
Reforço
Directo da Rede de Segurança Social
9.
Expansão de Créditos Fiscais para Trabalhadores e Benefícios Laborais. Os dados da OCDE mostram que
transferências monetárias e créditos fiscais reduzem significativamente a
pobreza. A expansão de
programas semelhantes ao EITC especialmente para trabalhadores sem dependentes oferece
apoio imediato ao rendimento e reforça incentivos ao trabalho. Portugal
tem ampliado prestações como o Complemento Solidário para Idosos e o apoio às
famílias de baixos rendimentos. Macau
reforçou apoios directos durante e após a pandemia, embora ainda sem um sistema
de créditos fiscais estruturado.
10.
Estabelecimento de Serviços Básicos Universais. A experiência internacional demonstra que reduzir
custos essenciais como habitação, saúde, transportes e acesso digital aumenta
de forma efectiva o rendimento disponível das famílias. Estados‑Membros da UE
com serviços universais robustos, como os países nórdicos, apresentam níveis de
desigualdade consistentemente baixos. Portugal tem investido em habitação
acessível e reforçado o Serviço Nacional de Saúde. Macau mantém um sistema de
saúde público‑privado altamente subsidiado e programas de apoio à habitação
pública, que desempenham papel central na redução de encargos familiares.
Conclusão
Reduzir a desigualdade de rendimentos até 2026 exige uma
estratégia coordenada e multidimensional. A evidência internacional da OCDE, da
União Europeia, de Portugal e de Macau demonstra que a redistribuição fiscal
continua a ser um poderoso equalizador; que instituições laborais fortes moldam
a distribuição salarial; que o investimento em capital humano é essencial para
a mobilidade social; e que serviços universais e transferências direccionadas
oferecem alívio imediato e equidade estrutural. Nenhuma política isolada é
suficiente, mas a implementação conjunta destas dez medidas apoiada pelas
melhores práticas internacionais constitui um quadro sólido para construir
sociedades mais equitativas, resilientes e sustentáveis.
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Referências:
https://www.scirp.org/journal/paperinformation?paperid=141153
https://www.e-jps.org/archive/view_article?doi=10.52372/jps.e676




